Uma quinta familiar do Brasil acaba de produzir o melhor azeite do mundo
Tudo começou numa mercearia de Porto Alegre
Há momentos na história de um setor em que tudo muda para sempre. Um acordo que redefine aquilo que se julgava possível. Uma garrafa que reduz os céticos ao silêncio.
Em abril de 2026, nas elegantes salas do concurso internacional de Genebra, os jurados provaram às cegas um azeite virgem extra e, pela primeira vez desde a criação da competição, atribuíram-lhe a pontuação máxima: 100 em 100. Por unanimidade.
A garrafa vinha de uma exploração agrícola familiar em Viamão, a apenas vinte e oito quilómetros de Porto Alegre, no estado mais meridional do Brasil.
O Velho Continente acabava de perder algo que julgava possuir para sempre.
A indignação de um homem
Tudo começou com uma frustração.
Lucídio Morsch Goelzer trabalhava no comércio internacional. Durante anos, as viagens profissionais levaram-no a Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Turquia, Argentina, Chile e Peru. Em cada destino fazia sempre o mesmo: visitava lagares, provava os azeites locais, observava os olivais e escutava os mestres lagareiros explicarem o que havia de único naquela terra, naquele vento, naquela altitude.
Depois regressava ao Brasil.E, nas mercearias, restaurantes e lojas gourmet de Porto Alegre, procurava um azeite que se aproximasse daquilo que tinha conhecido na Europa.Nunca o encontrava.
O mercado brasileiro estava inundado de azeites importados de qualidade medíocre, muitas vezes adulterados, vendidos a preços que pouco diziam sobre a sua verdadeira origem ou forma de produção.
A cada viagem, essa realidade tornava-se mais difícil de aceitar. Até que um dia tomou uma decisão que a família recorda hoje como uma loucura perfeitamente racional. «Vou deixar de me queixar e produzir o meu próprio azeite.»Não para vender.
Mas para que a sua família pudesse ter à mesa o mesmo azeite que encontrara nos melhores lagares do Mediterrâneo.
Regressou a Viamão, olhou para as suas terras com outros olhos — já não como proprietário rural, mas como futuro olivicultor — e começou a perceber que talvez aquele solo gaúcho escondesse um potencial extraordinário.

Um terroir improvável
Viamão não corresponde à imagem clássica da olivicultura mundial. Não é a Andaluzia abrasada pelo sol. Nem as colinas da Toscana envoltas naquela luz dourada que séculos de pintura transformaram em mito. É uma cidade da área metropolitana de Porto Alegre, verde, temperada e praticamente desconhecida nos grandes circuitos internacionais da gastronomia. Mas Lucídio Goelzer viu ali aquilo que ninguém mais via.
A propriedade familiar — Quinta da Estância — situa-se a cerca de 110 metros de altitude, sobre solos que combinam argila, areia e matéria orgânica em proporções particularmente favoráveis ao cultivo da oliveira. A precipitação distribui-se de forma equilibrada ao longo do ano. Os invernos são suficientemente frios para proporcionar o repouso vegetativo das árvores. E existe ainda um elemento decisivo: o mar. A apenas sessenta quilómetros do litoral gaúcho, as brisas marítimas percorrem regularmente a propriedade, refrescando as noites de verão, atrasando a maturação das azeitonas e concentrando nelas uma riqueza aromática que, anos mais tarde, as análises laboratoriais confirmariam como verdadeiramente excecional.
Em 2004, Lucídio Goelzer convenceu a Embrapa — o organismo brasileiro de investigação agrícola — a instalar uma unidade experimental nas suas terras.A região nem sequer fazia parte dos planos iniciais. Foi preciso insistir, apresentar estudos, argumentar e voltar a insistir. Por fim, a Embrapa plantou 35 variedades de oliveiras na propriedade. Goelzer, por iniciativa própria e assumindo todo o risco, plantou mais mil árvores.Cinco anos depois, aquela quinta transformara-se na principal unidade de investigação olivícola do Brasil. Nada disto estava previsto. Mas tudo mudou.
A família como método
A história da Estância das Oliveiras é, acima de tudo, uma história de transmissão familiar. Lucídio e a esposa, Sónia, têm três filhos: Rafael, André e Lucas. Cada um encontrou naturalmente o seu lugar no projeto.
Foi André, o mais novo, quem tomou talvez a decisão mais exigente. Mudou-se para Itália para se formar como mestre lagareiro — o equivalente, no mundo do azeite, ao enólogo no universo do vinho. Aprendeu a dominar temperaturas, tempos de extração, maquinaria e todos aqueles detalhes invisíveis que determinam se uma azeitona dará origem a um azeite extraordinário ou apenas a mais um produto comum. Regressou a Viamão com um conhecimento adquirido numa tradição italiana construída ao longo de séculos e aplicou-o a azeitonas brasileiras, num contexto que nenhuma escola italiana poderia ter antecipado.
Rafael assumiu a direção comercial e estratégica. Desde o lançamento da marca, em 2019, decidiu inscrever os azeites familiares nos concursos internacionais mais prestigiados. Não para colecionar medalhas — expressão que rejeita sistematicamente. Mas para obter avaliações imparciais. Para confrontar o trabalho da família com os melhores provadores do mundo. Para aprender. Para melhorar.
A primeira participação trouxe um prémio. A segunda também. Em apenas sete anos, a marca acumulou mais de 250 distinções internacionais, conquistadas nos cinco continentes.Cada medalha foi, antes de mais, uma lição.

A filosofia da colheita precoce
Existe uma escolha técnica que explica aquilo que os jurados de Genebra provaram em abril de 2026. André Goelzer adotou aquilo que os melhores produtores de azeite do mundo praticam há muito tempo: a colheita precoce. As azeitonas são apanhadas ainda verdes, antes da maturação completa, quando concentram níveis muito mais elevados de compostos fenólicos.
O custo dessa decisão é imediato. Uma azeitona verde produz entre 20% e 30% menos azeite do que uma azeitona madura. Em termos económicos, significa abdicar deliberadamente de uma parte importante da produção. Rafael Goelzer resume essa filosofia numa frase simples: «Se esperasse pela maturação completa, produziria cerca de trinta por cento mais azeite. Mas nós não queremos quantidade. Queremos qualidade.»
É precisamente essa colheita antecipada que preserva uma extraordinária riqueza aromática. Enquanto muitos azeites de elevada qualidade apresentam sete notas aromáticas distintas nas provas internacionais — erva acabada de cortar, amêndoa, alcachofra, tomate verde, pimenta, feno e folha de figueira — os azeites da Estância das Oliveiras revelam regularmente entre doze e catorze aromas diferentes. Nenhum deles é acrescentado. Todos resultam do terroir, do solo, das brisas marítimas, da variedade cultivada, do momento exato da colheita e das duas ou três horas que decorrem entre a apanha e a extração no lagar familiar.
É esse intervalo mínimo que protege o fruto da oxidação e preserva integralmente a sua assinatura química. Até a embalagem prolonga esta obsessão pela excelência. A família Goelzer optou por garrafas de cerâmica, não apenas pela estética, mas porque a cerâmica oferece proteção total contra os três maiores inimigos do azeite: luz, calor e oxigénio. Um doseador incorporado reduz ainda mais o contacto com o ar sempre que a garrafa é utilizada. É uma solução mais dispendiosa. Mas garante que o consumidor prova exatamente o mesmo azeite que conquistou o júri internacional.

Genebra, abril de 2026: o veredito da história
O European International Olive Oil Competition (EIOOC) realiza-se em Genebra sob a supervisão do GIOOC, organismo internacional que reúne os principais concursos mundiais de azeite. Na edição de 2026 participaram mais de 200 marcas provenientes de 17 países. Espanha, Itália, Grécia, Portugal, Turquia, Croácia, França, Marrocos, Tunísia, África do Sul, Estados Unidos, Brasil, entre outros. As provas decorrem totalmente às cegas.
O azeite apresentado pela família Goelzer era um Frantoio monovarietal, produzido exclusivamente com a variedade italiana Frantoio, adaptada ao terroir de Viamão. O júri provou. Deliberou. E, pela primeira vez na história da competição, atribuiu 100 pontos em 100. Por unanimidade. Sem reservas. Sem divergências. Sem qualquer defeito identificado. Complexidade máxima. Equilíbrio absoluto.
O presidente do concurso, Raouf Chouket, enviou pessoalmente uma mensagem à família Goelzer, classificando o resultado como a mais elevada distinção alguma vez alcançada na história do concurso.
Quando recebeu a notícia, Rafael Goelzer confessou simplesmente: «Nunca tínhamos visto uma pontuação de 100 em 100 em nenhuma competição.» O irmão André, mestre lagareiro responsável por aquele azeite, acrescentou: «Receber um reconhecimento desta dimensão honra a nossa família, o nosso terroir e o nosso país.»
O que esta garrafa revela sobre o Brasil
A pontuação perfeita obtida em Genebra não foi um acaso. Foi o resultado de vinte e cinco anos de trabalho paciente, metódico e discreto, iniciado por um homem que decidiu trocar as queixas pela ação. Mas revela também algo mais profundo.
A Estância das Oliveiras já não está sozinha. Hoje, o Rio Grande do Sul concentra cerca de 80% da produção brasileira de azeite, e Viamão afirma-se progressivamente como um novo polo olivícola reconhecido internacionalmente. Cerca de cinquenta produtores trabalham atualmente em mais de duzentos municípios brasileiros, desde o Sul até Minas Gerais e Bahia. A colheita nacional de 2026 deverá atingir um milhão de litros, a maior da história do país. No segmento super premium, alguns azeites brasileiros são vendidos por cerca de 120 euros por litro, sobretudo em mercados de nicho como Tóquio, Singapura ou Seul, que reconheceram o seu valor antes mesmo da Europa.
O presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura, Flávio Obino Filho, resume o paradoxo do setor: «Ainda chegamos apenas a cerca de um por cento dos consumidores brasileiros de azeite — aqueles que estão dispostos a pagar um preço justo por um produto verdadeiramente diferenciado.» Quase 98% do azeite consumido no Brasil continua a ser importado. O potencial de crescimento permanece enorme.
Rafael Goelzer, por seu lado, nunca fechou as portas da Estância aos restantes produtores gaúchos. Partilha conhecimentos, explica métodos, revela erros e sucessos. Porque acredita numa ideia simples: «Não quero que exista um único produtor de azeite de baixa qualidade no Rio Grande do Sul. Isso apenas alimentaria o estereótipo de que tudo o que vem do estrangeiro é melhor do que aquilo que produzimos no Brasil.»
A pergunta que muda tudo
Há uma pergunta que os grandes produtores europeus talvez nunca tenham imaginado ter de fazer: E se produziram os melhores azeites do mundo durante tanto tempo apenas porque mais ninguém tinha tentado fazê-lo com a mesma ambição? Lucídio Goelzer não pensava nisso quando plantou as suas primeiras mil oliveiras em 2004, assumindo sozinho todos os riscos. Queria apenas um bom azeite para a família. Vinte e cinco anos depois, sete mil oliveiras, mais de duzentos e cinquenta prémios internacionais e uma pontuação perfeita de 100 em 100 em Genebra levaram o mundo a descobrir aquilo que a brisa marítima de Viamão sempre soube.
Há terroirs que esperam séculos até serem descobertos.Este precisava apenas da indignação de um homem diante da prateleira de uma mercearia em Porto Alegre — e da decisão de deixar de se queixar para começar a produzir.

