Em 2027, São Paulo vai se tornar a cidade mais saborosa do mundo
O Time Out Market — nascido em Lisboa, consagrado em Nova York — desembarca no Brasil
Existem conceitos que mudam a forma como uma cidade é vivida. O Time Out Market é um deles. Fundado em Londres em 1968, o magazine Time Out construiu sua reputação como guia cultural, ajudando seus leitores a encontrar a melhor comida, os melhores eventos e as melhores experiências de suas cidades. Depois, diante das turbulências do mundo digital, o grupo teve uma intuição de gênio: não apenas escrever sobre as melhores mesas do mundo — mas encarná-las. O Time Out Market nasceu de um conceito simples, porém revolucionário para a época: dar vida ao conteúdo da revista, oferecendo aos visitantes a possibilidade de experimentar fisicamente os lugares e os sabores que a publicação recomendava há décadas. Cada restaurante e cada chef presente no mercado é selecionado pela equipe editorial do Time Out.
Hoje, doze anos após a abertura da primeira unidade em Lisboa, São Paulo é escolhida para receber o primeiro Time Out Market da América do Sul. A inauguração está prevista para o primeiro trimestre de 2027 e, com essa abertura, São Paulo vai se juntar a um seleto grupo de cidades que inclui Lisboa, Nova York, Barcelona, Dubai, Vancouver e Cidade do Cabo. Para a capital gastronômica do continente, é muito mais do que uma abertura comercial. É uma consagração.

Lisboa 2014: quando uma revista virou um lugar
Para entender o que espera São Paulo, é preciso primeiro entender o que Lisboa viveu. A virada decisiva aconteceu em maio de 2014. A equipe do Time Out Portugal teve a ideia de transformar parte do Mercado da Ribeira — um galpão histórico meio abandonado — num mercado “editorializado”. O conceito é simples: se um prato ou um chef recebeu quatro ou cinco estrelas na revista, ele garante sua vaga. É como se você folheasse um guia gastronômico, mas pudesse comer as páginas.
Desde a inauguração, o Time Out Market Lisboa atrai mais de 3,8 milhões de visitantes por ano, tornando-se o espaço cultural mais visitado de Portugal. Em 2016, dois anos após a abertura, o faturamento já chegava a 24 milhões de euros. Em 2018, o projeto recebeu o Hamburg Foodservice Award, prêmio internacional considerado o “Oscar” do setor de alimentação na Europa, consagrando o Time Out Market como “um dos conceitos mais visionários do setor alimentar europeu”.
Na sua versão lisboeta, o mercado reúne hoje 26 restaurantes, 8 bares, uma dezena de lojas, um espaço de eventos premium e uma academia de culinária. Cinco grandes chefs portugueses têm seus próprios espaços: Alexandre Silva, Miguel Castro e Silva, Marlene Vieira, João Rodrigues e Henrique Sá Pessoa — este último com duas estrelas Michelin, cujo lendário leitão confitado por 24 horas gera fila permanente. Não é uma praça de alimentação. É uma dramaturgia culinária, rigorosamente encenada.
São Paulo: a escolha óbvia
O acordo de franquia foi assinado com a Giunina LLC, por meio do Time Out Market Brazil, que será responsável pelo desenvolvimento e operação local do projeto — da escolha do local e negociação dos contratos à formação da equipe e curadoria gastronômica, com o apoio estratégico do grupo Time Out. É o segundo acordo de franquia já assinado pelo Time Out Market no mundo, depois da Índia em 2025. O Brasil é, portanto, o segundo território mundial a receber esse modelo — um sinal claro da confiança que o grupo londrino deposita no potencial do mercado brasileiro.
Por que São Paulo e não Rio, Florianópolis ou Fortaleza? A resposta está nos números e no DNA do próprio conceito. São Paulo é a maior cidade da América Latina, com seus vinte e três milhões de habitantes. Abriga mais de oitenta culinárias do mundo em seus bairros. Conta, desde abril de 2026, com dois restaurantes com três estrelas Michelin — os primeiros de toda a América Latina. É, sem discussão possível, a capital gastronômica do continente. Para um conceito fundado na curadoria — na seleção editorial do melhor de uma cidade —, nenhuma outra cidade do subcontinente oferecia tanta matéria-prima.
A localização exata do mercado ainda não foi divulgada, mas os organizadores indicaram que a escolha do espaço leva em conta o perfil diversificado do público esperado. “Escolhemos uma região estratégica. Como o mercado vai funcionar sete dias por semana, precisamos do movimento corporativo durante a semana e do movimento cultural e turístico nos fins de semana”, explica o parceiro brasileiro. A ambição é clara: criar um lugar que seja ao mesmo tempo cantina para os profissionais da Faria Lima e destino de fim de semana para turistas e apaixonados por gastronomia.

Um mercado que se recusa a ser uma cópia
O que distingue o modelo Time Out de todas as outras tentativas de food halls — e elas são muitas, do Covent Garden Market ao Tokyo Midtown — é exatamente essa recusa à padronização. O cardápio da versão paulistana não será uma cópia das unidades europeias ou americanas. A curadoria vai mapear a cena culinária vibrante de São Paulo, misturando a alta gastronomia de chefs premiados com o melhor da street food e da cozinha popular que dão identidade à metrópole.
A proposta é reunir diferentes perfis de estabelecimentos, incluindo chefs consagrados, novos talentos da gastronomia e representantes da cozinha popular paulistana. Essa promessa de diversidade é exatamente o que fez a força do modelo lisboeta: sentar, na mesma mesa, diante de um bacalhau confitado por um chef estrelado e um pastel de nata servido por uma padaria de bairro. A democracia do gosto como princípio fundador.
O acordo de master franquia prevê também a possibilidade de expansão para outras cidades brasileiras nos próximos anos, com o objetivo de “implantar a marca no Brasil com potencial de abrir outras operações”. São Paulo não é, portanto, um destino final. É uma cabeça de ponte.
O que São Paulo vai oferecer ao mundo
Há uma convergência histórica nesse anúncio que os observadores da cena gastronômica mundial não deixaram passar. Em poucos meses, São Paulo recebeu suas duas primeiras três estrelas Michelin — Tuju e Evvai — e foi escolhida como a primeira cidade da América do Sul a receber o Time Out Market. Não é coincidência. É o reconhecimento sistêmico de uma cena culinária que atingiu uma maturidade e uma diversidade que poucas cidades no mundo conseguem alcançar.
A diretora do Time Out Market Lisboa formulou com uma precisão que se aplica plenamente a São Paulo: “Não haveria Time Out Market sem a revista, e não haverá Time Out Market no futuro sem a revista.” O que essa frase diz do modelo é que o mercado é inseparável do ato editorial que o precede e o legitima. São jornalistas que decidem quem entra e quem fica. São críticos que fixam os padrões. A gastronomia é tratada com o mesmo rigor de uma grande reportagem — e é exatamente por isso que o público confia.
Para São Paulo, a abertura do Time Out Market em 2027 será um momento de definição. Não tanto pelo que trará de novo — a cidade não tem falta disso — mas pelo que vai simbolizar: o olhar do mundo pousado sobre uma cena culinária que merecia há muito tempo esse holofote. Uma revista que se come, dizem os lisboetas do seu mercado. Nas ruas de São Paulo, também se poderia dizer: um Brasil que o mundo vem finalmente degustar.
