O Cerrado chega a Lisboa — e a Europa descobre enfim seu sabor mais secreto
Durante décadas, o mundo provou a Amazônia sem nunca ouvir falar do Cerrado. Em 2026, esse silêncio está se quebrando — e começa, contra todas as expectativas, num estande da Feira de Turismo de Lisboa.



Um chef, uma mala e frutas que ninguém conhece
Em Lisboa, no estande do Brasil da BTL — a grande feira internacional de turismo —, o chef Gil Guimarães trabalha diante de um público que, em sua grande maioria, jamais ouviu as palavras que ele pronuncia. Pequi. Buriti. Castanha de baru. Pimenta-de-macaco. Ingredientes quase impossíveis de encontrar nos mercados portugueses, que ele precisou trazer consigo, como quem carrega um segredo precioso.
Nascido em Brasília — a maior cidade do Cerrado, diz ele com orgulho —, Gil Guimarães pertence a essa nova geração de chefs que se recusa a deixar esse território à sombra da Amazônia. Sua canjiquinha de porco ao pequi, sua crosta de baru moído, sua pitada de pimenta-de-macaco herdada das comunidades quilombolas Kalunga: cada prato é uma aula de geografia comestível.
“Brasília ainda não tem uma gastronomia que seja sua. Ela tem uma cozinha do cosmos brasileiro, feita de informações vindas de todos os cantos do país”, explica ele. Uma frase que diz tudo sobre o momento que o Cerrado atravessa: ele está inventando sua identidade culinária em voz alta, diante do mundo inteiro.

Durante muito tempo, acreditou-se que o Brasil se resumia a dois pratos
Há uma frase que circula agora nas cozinhas de Brasília e merece ser ouvida em Paris: durante anos, lá fora, a gastronomia brasileira se resumia a duas coisas — o churrasco e a feijoada. A grande virada chegou com um nome: Alex Atala, o chef que apresentou ao mundo os produtos do norte brasileiro, como o tucupi.
Foi a partir dessa brecha que tudo mudou. Vieram as gerações de Minas Gerais, do Pantanal, da Amazônia. E agora é a vez do Cerrado — por muito tempo visto apenas como o território da soja e do gado — de resgatar sua própria cozinha e dar a ela um novo rosto.
Nos últimos sete ou oito anos, essa cozinha ganhou visibilidade no restante do Brasil. No plano internacional, esse movimento começou há apenas três ou quatro anos. Lisboa 2026 não é, portanto, um ponto de chegada. É um começo.
A “floresta invertida” que esconde seus tesouros debaixo da terra
Para entender por que o Cerrado fascina tanto quem o descobre, é preciso compreender sua lógica invertida. Essa savana tropical — que cobre quase um quarto do território brasileiro e é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta — esconde o essencial de sua potência abaixo da superfície. Um sistema de raízes profundas, capaz de sobreviver a incêndios e longas secas, nutre uma flora que nada no mundo reproduz.
É desse mundo subterrâneo que nascem as frutas que hoje viram a cabeça dos chefs: o pequi, de aroma intenso que divide e fascina ao mesmo tempo; o baru, cuja textura evoca um encontro entre a amêndoa e a avelã; o buriti, transformado em geleias e bebidas artesanais; a cagaita; o araticum, com notas quase pâtissières; o jatobá. Cada um conta uma história diferente do mesmo território.
Em Goiânia — capital do Estado de Goiás e coração geográfico do Cerrado, no centro do Brasil —, essas frutas não são uma descoberta. São a memória de infância de toda uma população — vendidas nos mercados com a simplicidade de quem pertence ao cotidiano desde sempre.
Quando a alta gastronomia se apodera do Cerrado
O que muda hoje é o olhar que os chefs lançam sobre esses ingredientes. Eles não os tratam mais como curiosidades folclóricas a exibir uma vez por ano. Os integram em criações ambiciosas, onde a técnica contemporânea dialoga com sabores transmitidos oralmente por gerações, sem receita escrita, com uma precisão instintiva do gosto.
Essa transformação faz parte de um movimento mundial mais amplo: o de uma gastronomia que busca rastreabilidade, origem, sentido. O Cerrado, nesse contexto, torna-se um terreno de experimentação ideal — um território ainda amplamente virgem de qualquer peso de imagem preconcebida, o oposto de uma Toscana ou de uma Provença cujos produtos já foram contados mil vezes.
É exatamente essa frescura que seduz hoje os viajantes gastronômicos mais exigentes: a possibilidade de descobrir um terroir que ainda não foi padronizado pelo turismo de massa.

O que o Cerrado tem a oferecer ao mundo
O Cerrado é um território poderoso — uma savana que cobre um quarto do Brasil, que irriga o país inteiro a partir de suas fontes subterrâneas, e que apenas começou a revelar a extensão de sua riqueza gastronômica. É exatamente essa potência que torna sua valorização culinária tão importante: cada prato que celebra o pequi ou o baru afirma ao mundo que esse bioma não é uma simples reserva de matérias-primas agrícolas, mas um terroir de uma nobreza comparável às maiores regiões gastronômicas do planeta.
Em Lisboa, em março de 2026, alguns curiosos provaram pela primeira vez uma cozinha que desconheciam. Em Paris, em Londres, em Nova York, esse momento chegará em breve. O Cerrado viveu por muito tempo à sombra da Amazônia. Está se preparando agora para contar sua própria história — e o mundo começa, enfim, a prestar atenção.


Brasil à Table — O Brasil não se explica. Se experimenta.
