Os sommeliers brasileiros que estão conquistando o mundo do vinho
De São Paulo a Girona, do Rio a Sonoma: Manoel Beato, Juliana Carani, Wallace Neves e Renato Neves estão redefinindo a sommellerie em escala internacional.
Manoel Beato — O Patriarca
Tudo começa em Vera Cruz, pequena cidade do interior de São Paulo, onde ninguém ainda havia colocado uma taça de Borgonha na mesa. Manoel Beato estuda Letras na Unesp de Assis nos anos 1980 — literatura, história, palavras — e trabalha como garçom para pagar os estudos. É num bar que ele encontra, quase por acidente, o que se tornaria o sentido da sua vida: uma garrafa que fala mais alto do que qualquer romance.
Não existem cursos de sommellerie no Brasil naquela época. A profissão em si é pouco conhecida, reservada a alguns palacetes de Paris, Londres ou Nova York. Beato faz o que todos os grandes fazem: parte. Junta suas economias e embarca para a Europa. Um ano de imersão na Espanha e na França, uma especialização no Bureau Interprofessionnel des Vins de Bourgogne — esse santuário do conhecimento ampelográfico — e volta ao Brasil com um território vinícola inteiro na cabeça que ninguém ao seu redor ainda consegue cartografar.
Em 1989, torna-se sommelier profissional. Em 1992, entra no Fasano, restaurante italiano de São Paulo que já é, nos círculos gastronômicos brasileiros, uma instituição. Lá ficará por mais de três décadas, tornando-se ao longo do tempo a consciência enológica de um grupo que conta hoje com dezoito restaurantes espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Beato é responsável por uma adega de quatro mil garrafas. Prova em média quarenta vinhos por dia. Estima-se que tenha analisado mais de oitenta mil desde o início da carreira — o ritmo de quem bebe com a mesma precisão e exigência de quem traduz um texto do grego antigo.
Mas Beato não é apenas um palato. É um intelectual do vinho. Sua formação literária jamais desapareceu: ele escreve, publica o Guia de Vinhos Larousse na versão brasileira, apresenta durante anos o programa Adega Musical na Rádio Eldorado FM — mesclando vinho e música com uma elegância que não se parece com mais ninguém. Cofunda com sua esposa, a sommelière Juliana Carani, a plataforma de consultoria VinoBeato, que expande sua influência muito além do salão do Fasano. Em 2022, Juliana é eleita Sommelière do Ano pela Associação Brasileira de Sommeliers — um título de família que diz tudo sobre a profundidade do compromisso conjunto.
Beato tornou-se, ao longo dos anos, o que toda profissão precisa produzir para existir de verdade: um fundador. Ele mostrou que se pode nascer em Vera Cruz e falar de Pommard com uma autoridade que não se obtém nem mesmo em Dijon, mas nas adegas da própria curiosidade.

Juliana Carani — A Sommelière das Estrelas Michelin
Ela nasceu em Belo Horizonte, no coração de Minas Gerais — estado brasileiro conhecido pelos queijos, pela caipirinha e pelas montanhas, bem menos pelas cartas de vinhos. Juliana Carani ainda não sabia que sua vida mudaria definitivamente no dia em que começou a trabalhar no salão de um restaurante em São Paulo. Não foi o vinho que a seduziu primeiro: foi o serviço, a relação com o cliente, aquele instante suspenso em que uma garrafa bem escolhida transforma um jantar comum em memória inesquecível.
Ela parte para se formar, acumula certificações — ABS, WSET — e então entra no grupo LVMH, o maior conglomerado de luxo do mundo, onde representa as mais prestigiosas maisons de vinho e Champagne e forma equipes nos melhores restaurantes do Brasil. É uma escola de excelência como poucas: ali não se aprende apenas técnica, aprende-se rigor, exigência, a maneira como o luxo se conta sem nunca se gabar.
Mas Carani é, antes de tudo, uma mulher de salão. Ela assume o posto de chef sommelière no Tuju, restaurante duas estrelas Michelin em São Paulo. Depois no restaurante Pipo, ao lado do chef Felipe Bronze, uma das figuras mais criativas da gastronomia brasileira contemporânea. Em 2023, ela cruza uma nova fronteira: vai trabalhar no Celler de Can Roca, em Girona, na Espanha — três estrelas Michelin, casa dos irmãos Roca, regularmente citada entre os dez melhores restaurantes do mundo. É ali que se mede a estatura de uma sommelière: quando o melhor restaurante do mundo chama.
Hoje chef sommelière do grupo Ristorantino em São Paulo, ela gerencia diversas cartas simultaneamente, assessora o terminal BTG do aeroporto de Guarulhos e conquista em 2024 o prêmio de Sommelier Consultora do Ano concedido pela revista Prazeres da Mesa. É uma das vozes mais ouvidas do vinho no Brasil — e uma das representantes mais elegantes de uma geração de mulheres que transformou a sommellerie em espaço de criatividade total.

Wallace Neves — A Estrela em Ascensão da ASI
Ele nasceu no Rio de Janeiro, cidade de mar e samba, cidade onde o copo que se levanta é mais frequentemente o de uma cerveja gelada do que o de um Riesling do Mosela. Wallace Neves começa sua carreira de sommelier sem rede de apoio — dezessete anos de ofício acumulados lentamente, com a perseverança de quem compreendeu que a excelência não é uma linha de chegada, mas um horizonte que recua à medida que avançamos.
Quatro vezes candidato ao título de Melhor Sommelier do Brasil antes de chegar à final. Vale parar um instante nesse número. Quatro tentativas. Quatro vezes colocar o ego à mesa, retomar os cadernos, degustar às cegas vinhos que já se conhece e encontrar novos para dominar. Em 2022, em Bento Gonçalves, na região vinícola do Vale dos Vinhedos no Rio Grande do Sul, conquista finalmente o título de Melhor Sommelier do Brasil, diante de dezenove candidatos vindos de todos os estados do país.
Esse título poderia ser um fim. É apenas um começo. Em dezembro do mesmo ano, a Association de la Sommellerie Internationale — a ASI, organismo mundial sediado em Paris que rege a profissão em setenta países — publica em sua revista mensal um artigo intitulado Estrellas Emergentes de La Sommellerie: La Nueva Generación que Forja el Futuro. Wallace Neves figura entre quinze profissionais identificados globalmente como aqueles que estão redefinindo o futuro da sommellerie. Seus vizinhos de página são italianos, argentinos, americanos, japoneses, dinamarqueses. Ele é o único brasileiro. E, sem dúvida, o menos esperado.
Em fevereiro de 2025, representa o Brasil no Concurso do Melhor Sommelier das Américas em Sonoma, na Califórnia — prova organizada pela ASI que reúne os campeões nacionais do continente, diante das delegações americana, canadense, mexicana, peruana, chilena e argentina. Sua formação conjuga as certificações ABS, o WSET nível 3, estágios e temporadas em vinhedos da Europa e da América Latina. Um carioca entre as vinhas da Borgonha: é isso que produz a convicção de que a geografia do nascimento não limita a geografia da alma.

Renato Neves — O Livro e a Memória
Toda grande profissão produz, um dia, seu memorialista. A sommellerie brasileira encontrou o seu em Renato Neves — cuja trajetória é suficientemente rica para virar livro, o que ele decidiu precisamente fazer. Porque Neves compreendeu algo essencial: uma profissão que não se conta desaparece com aqueles que a exerceram.
Sua carreira é um retrato da sommellerie brasileira em si mesma: os começos modestos, a paixão que cresce à sombra das grandes casas, o reconhecimento progressivo, o concurso de Melhor Sommelier do Ano no Rio Wine and Food Festival — um dos eventos enológicos mais influentes da América do Sul — e, por fim, esse gesto de escrita que transforma uma vida dedicada ao vinho em patrimônio transmissível. Um livro não é vaidade: é um ato pedagógico. Neves o sabe, e é por isso que seu testemunho tornou-se, nos círculos de formação brasileira em sommellerie, uma referência que os jovens profissionais leem antes de fazer sua primeira certificação.
O que essas histórias dizem sobre o Brasil
Seria fácil resumir essas trajetórias numa fórmula: o Brasil está alcançando o mundo do vinho. Mas isso seria trocar o relato. O Brasil não está alcançando nada. Ele traz algo que a Europa nem sempre soube preservar: essa curiosidade total, não defensiva, não protocolar, que caracteriza quem aprende uma língua estrangeira por amor e não por obrigação. O sommelier brasileiro não protege uma herança. Ele a conquista, garrafa por garrafa, degustação por degustação, certificação após certificação, viagem após viagem.
Manoel Beato passou um ano na França sem que ninguém o tivesse convidado. Juliana Carani foi a Girona porque precisava se confrontar com os melhores. Wallace Neves falhou quatro vezes antes de conseguir, porque havia decidido que o fracasso era um professor, não um veredicto. São trajetórias brasileiras no que têm de mais autêntico: uma resistência sorridente, uma ambição sem arrogância, uma generosidade no compartilhamento do saber que os grandes salões do mundo aprenderam a reconhecer.
Nas adegas mais profundas de São Paulo, de Bento Gonçalves ou do Rio de Janeiro, uma nova geração está estudando. Ela aprende o Pomerol e o Priorat, o Barolo e o Riesling Spätlese, as harmonizações entre a moqueca de camarão e um Viognier do Ardèche. Ela se prepara para os concursos da ASI, para as cartas dos restaurantes estrelados, para as caves dos melhores hotéis do mundo. E quando alguém pergunta de onde vem, ela responde com a calma de quem não tem mais nada a provar: do Brasil.
Brasil à Table — O Brasil não se explica. Se experimenta.
