Xeque Mate: como dois estudantes de Belo Horizonte criaram a bebida mais cult do Brasil

Da fogueira de uma chácara de bairro a 9 milhões de litros produzidos em 2025: a marca de chá mate, rum e guaraná que agora mira o mundo.

Há empresas que nascem em garagens. Xeque Mate nasceu numa mata, ao redor de uma fogueira, numa chácara alugada no bairro Jaqueline, em Belo Horizonte, onde dois jovens bartenders espremiam limão à mão para uma festa que precisava terminar ainda naquela mesma noite. No início, o processo era totalmente artesanal e muitas vezes improvisado: “A gente alugou uma chácara no bairro Jaqueline, fazia festa lá, era uma chácara numa reserva natural. A gente preparava o Xeque Mate na fogueira, lá no fundo do terreno, espremendo limão até os braços doerem, a validade era curta, então tinha que beber tudo antes do fim da festa. Era uma história bem engraçada.”

Essa história engraçada se transformou, em onze anos, em um dos fenômenos mais notáveis da indústria brasileira de bebidas. Em 2025, dez anos após a fundação, a Xeque Mate atingiu o melhor resultado de sua história: 9 milhões de litros produzidos, um crescimento de 26% em relação a 2024, o equivalente a mais de 19 milhões de latas de 473 ml e 25 milhões de latas de 355 ml. E para 2026, a marca projeta atingir 15 milhões de litros — com, na mira, algo que ninguém esperava de uma bebida nascida nas festas de rua da capital mineira: a conquista internacional.

O drink que não existia em lugar nenhum

Xeque Mate é uma bebida alcoólica mista originária de Belo Horizonte. Nascida em 2015, é composta, em sua fórmula tradicional, por chá mate, rum, xarope de guaraná e suco de limão. Caracteriza-se pelo sabor adocicado com notas cítricas e um leve amargor proveniente do mate.

Essa combinação é, por si só, uma declaração de identidade brasileira. O mate — essa planta que a América do Sul consome há séculos, em forma de chá ou infusão, e que hoje vive um renascimento mundial nos círculos do wellness — como base de um coquetel pronto para beber. O guaraná — fruto amazônico cuja energia natural e complexidade aromática despertam admiração crescente nos laboratórios de inovação em bebidas do mundo inteiro. O rum e o limão como estrutura. Tudo em lata, pronto para ser bebido na saída do metrô, num festival de rua, à beira da piscina ou num bar da Savassi.

A popularização da bebida se deu principalmente nos meios universitários e nas festas ao ar livre, contexto no qual a praticidade de um drink pronto para consumo favoreceu sua expansão. Esse timing não é acaso: a Xeque Mate surgiu exatamente no momento em que a geração Z brasileira buscava uma alternativa às cervejas industriais dos grandes grupos — algo que tivesse identidade, história, pertencimento cultural.

Alex e Gabriel: dois estudantes, uma receita, um império

A bebida foi criada em 2015 por Alex Freire e Gabriel Rochael, então estudantes da PUC Minas e da UFMG, respectivamente, que trabalhavam em paralelo como bartenders e DJs em eventos.

Gabriel Rochael, a quem todos chamam de Gael, conta as origens com a candura de quem ainda não se deu conta do que construiu: “A gente era muito envolvido na cena de eventos de Belo Horizonte, principalmente a cena cultural e alternativa: a gente alugava equipamento de som, organizava eventos, e nos fins de semana fazia drinks.” Um amigo pede a ele para criar um drink à base de chá mate para uma festa chamada Shake Shake. Nasce o Shake Mate. Depois, numa virada fonética e semântica digna de um golpe de mestre em branding involuntário, vira Xeque Mate — a mesma expressão usada no xadrez para anunciar a vitória. A bebida que dá xeque-mate na concorrência tinha encontrado seu nome.

A partir daí, os dois registraram a marca, patentearam a receita e investiram em pesquisa para aprimorar os ingredientes e a fórmula. O produto ganhou seu logo oficial, passou por um processo de redesign — e continua, ainda hoje, crescendo de forma exponencial.

A estratégia que mudou tudo

Gabriel Rochael resume com uma clareza desarmante as escolhas que permitiram essa decolagem: “A gente começou a empresa com recursos próprios. A gente cresceu de forma orgânica. Teve dificuldade pra atender o mercado, por causa da dimensão continental do Brasil e da complexidade tributária entre os estados, mas isso se regularizou há uns dois, três anos.”

A terceirização do envasamento das bebidas e a parceria com distribuidores — entre eles a Ambev — foram decisões estratégicas fundamentais para alcançar novos mercados. Essa escolha de se aliar à Ambev, a gigante cervejeira brasileira controlada pela AB InBev, pode parecer paradoxal para uma marca que construiu sua identidade sobre independência e autenticidade. Na verdade, é de uma inteligência notável: usar a rede logística da maior distribuidora do país sem ceder a ela o controle da receita, da marca ou da visão.

Hoje, a Xeque Mate está presente em todo o Brasil, com presença ainda majoritária no Sudeste. E Minas Gerais, que dominava o consumo, foi recentemente ultrapassado por São Paulo. A capital econômica do continente latino-americano, cidade de vinte milhões de habitantes e maior mercado consumidor do Brasil, hoje bebe mais Xeque Mate do que a cidade que a inventou. Uma cena resume melhor do que qualquer outra a dimensão dessa conquista: ao chegar na Neo Química Arena, em São Paulo, Gabriel Rochael ouviu os ambulantes anunciando: “Óia o Xeque Mate, a cerveja e a água”, nessa ordem. Ao lado dos dois produtos mais consumidos do país.

Um ecossistema, não uma marca

O que distingue profundamente a Xeque Mate de todas as outras bebidas que fizeram sucesso comercial no Brasil é a natureza do que ela se tornou. Não é uma bebida. É um ecossistema cultural.

Em onze anos, a marca nascida em Belo Horizonte transformou um drink de mate, rum, guaraná e limão em um ecossistema criativo que reúne bar, fábrica própria, marca de roupas e estúdio audiovisual — segmentos que se alimentam uns dos outros e levam o nome de Minas Gerais pelo Brasil e pelo mundo.

Os bares Mascate — três unidades em Belo Horizonte, no Centro, na Savassi e no bairro Floresta, mais uma unidade em Caraíva, na Bahia — são os templos da marca, os lugares onde a comunidade Xeque Mate se encontra todo fim de semana. O nome vem da palavra árabe maskhat, mercador ambulante, que remete à ideia de circulação, de encontro, de comércio informal e alegre.

O Lab Xeque Mate, marca de roupas com loja no Mercado Novo de Belo Horizonte, recentemente reinaugurada e ampliada, já colaborou com marcas como Baw, Renner, Coroa e Agomide. Uma bebida que também faz moda: é a prova de que a Xeque Mate entendeu o que as marcas mais poderosas do mundo levaram décadas para assimilar — que o produto é apenas a porta de entrada para uma relação cultural muito mais ampla.

A Xeque Mate Studios, no bairro Prado, em Belo Horizonte, desenvolve projetos com artistas da cidade e de fora — incluindo artistas internacionais. Um estúdio de produção audiovisual financiado por uma bebida em lata. O círculo se fecha.

E a marca nunca terceirizou seu marketing. Uma equipe interna, hoje grande e sólida, produz todo o conteúdo. O estúdio grava para a marca, a linha de roupas se lança junto com o estúdio, e tudo se conecta aos bares.

O próximo passo: o mundo

Gabriel Rochael afirma isso agora publicamente: os planos visam levar a bebida mineira para além das fronteiras do país. Não é fanfarronice — é uma leitura precisa do mercado mundial de bebidas prontas para consumo, que vive um crescimento espetacular em todas as economias desenvolvidas, impulsionado exatamente pelas tendências que a Xeque Mate encarna: autenticidade de origem, ingredientes funcionais — o mate, o guaraná —, alternativa aos álcoois industriais sem alma, e conexão com uma cultura urbana jovem e criativa.

O Carnaval foi o acelerador de uma notoriedade nacional que ninguém conseguiria comprar. Quando São Paulo concedeu exclusividade de venda à Ambev nos blocos oficiais, os ambulantes continuaram vendendo Xeque Mate por baixo do pano — e a bebida acabou eleita a bebida do Carnaval de São Paulo de 2024, contra todas as probabilidades. É o tipo de lenda de marca que nenhuma verba publicitária consegue criar. Ela se constrói nas ruas, nas mãos das pessoas, nas histórias que as pessoas contam.

A qualidade dos produtos e o senso de comunidade gerado pelo grupo têm um papel mais importante na proteção da marca do que a própria patente, segundo seu fundador. Isso é rigorosamente verdade — e é o que torna a Xeque Mate tão difícil de copiar. Dá para imitar uma receita de chá mate com rum. Não dá para imitar onze anos de história belo-horizontina, três bares emblemáticos, uma marca de roupas, um estúdio de produção e milhões de brasileiros que dizem “óia o Xeque Mate” como outros dizem “uma cerveja” — por automatismo, por reflexo, porque virou a única opção que vem à cabeça.

Da fogueira do bairro Jaqueline aos ambulantes da Neo Química Arena. De 2015 a 15 milhões de litros projetados para 2026. E amanhã, talvez, de uma lata na mão de um estudante parisiense ou de um frequentador de festival londrino provando pela primeira vez o mate, o guaraná e o limão de Minas Gerais. Xeque-mate.

Fontes: InfoMoney · Wikipedia · Guia do Investidor · BHAZ / Arreda pra Cá · Colab PUC Minas · FoodBiz Brasil · Mercado Hoje · Diário do Comércio

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