Naquela Noite no Copacabana Palace, São Paulo Virou Paris

Evvai, Tuju e seis estrelas Michelin: a consagração que a gastronomia brasileira esperava desde sempre.

No dia 13 de abril de 2026, no grande salão do Copacabana Palace — esse hotel art déco cravado como uma joia branca na curva de Ipanema —, aconteceu algo que o mundo da gastronomia aguardava sem realmente ousar esperar. Dois nomes ecoaram sob os lustres de cristal. Dois restaurantes de São Paulo. Dois chefs brasileiros. E três estrelas cada um. Pela primeira vez na história do Guia Michelin, a América Latina inteira entrava no círculo mais fechado da alta gastronomia mundial. Evvai e Tuju, ambos localizados em São Paulo, se tornaram os primeiros restaurantes de toda a América Latina a conquistar três estrelas Michelin. Naquela noite, São Paulo virou Paris. E Paris teve que olhar.

O Mundo Segundo a Michelin, Antes e Depois

É preciso medir o que representa essa tripla estrela para entender a dimensão do que estava em jogo. Gwendal Poullennec, diretor internacional do Guia Michelin, classificou a edição 2026 como um “marco histórico”, declarando que São Paulo havia se firmado definitivamente como um destino gastronômico de primeira linha, convidando apaixonados por gastronomia do mundo inteiro a visitá-la. Essas palavras não são as de um comunicado de ocasião. São a confissão oficial de que algo mudou de vez — que o mapa gastronômico mundial acaba de ser redesenhado, e que o Brasil ocupa agora um lugar que ninguém mais poderá tirar dele.

Evvai e Tuju se juntam ao palmarés brasileiro de 2026, que também ganha um sotaque francês: radicado no país há mais de 45 anos, Claude Troisgros recebeu, ao lado de Jessica Trindade, a primeira estrela para o restaurante Madame Olympe, no Rio, elevando para 19 o número de estabelecimentos nessa categoria, ao lado de outros três restaurantes com duas estrelas. O palmarés brasileiro de 2026 está, portanto, completo, coerente, e fala com uma só voz: São Paulo está pronta.

Ivan Ralston e o Tuju: São Paulo como Território da Alma

A primeira coisa que se aprende sobre Ivan Ralston é que ele desligou o telefone na cara do Guia Michelin. Quando, em 2014, poucos meses depois da abertura do Tuju, um inspetor ligou para anunciar sua primeira estrela, o chef respondeu com um palavrão e desligou, convencido de ser vítima de uma brincadeira de mau gosto. Esse reflexo diz tudo sobre o homem: uma desconfiança visceral em relação às instituições consagradas, uma prioridade absoluta dada ao prato, e não à recompensa, um jeito de cozinhar que se parece menos com uma estratégia do que com uma convicção.

Seus avós, judeus alemães e austríacos, fugiram do nazismo em busca de refúgio no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. É exatamente essa mistura histórica que Ivan Ralston traduz com uma precisão notável em seu prato. Os anos de formação o levam aos Estados Unidos, à Espanha, ao Japão — esse Japão cuja obsessão pela sazonalidade, pela pureza do produto, pela humildade do gesto voltará a assombrar cada uma de suas criações. Ele volta a São Paulo com a certeza de que sua cidade é uma matéria-prima inexplorada, um terroir que ninguém ainda pensou de verdade em cartografar.

O Tuju ocupa hoje um prédio de três andares inteiramente dedicado ao prazer culinário, a poucos passos do Museu da Casa Brasileira. O térreo recebe o primeiro salão de estar e a adega, além de um jardim interno. O segundo andar abriga o salão do restaurante, organizado ao redor de uma grande cozinha aberta cercada de mesas. O terceiro andar é um bar panorâmico com vistas espetaculares. Não é um restaurante. É uma dramaturgia.

Ralston trabalha com mais de cento e cinquenta fornecedores para decifrar a sazonalidade paulistana segundo um calendário que se apoia mais nas chuvas do que na temperatura — uma abordagem única que dá um novo fôlego à gastronomia local. As estações no Brasil não se organizam como na França ou na Itália. Elas se revelam na chuva, na seca, na umidade que sobe do Atlântico e muda o sabor das ervas dos hortelões do estado de São Paulo. O Tuju utiliza produtos de estação vindos de pequenos produtores locais, principalmente do estado de São Paulo, e conta com um centro de pesquisa que busca dar visibilidade aos produtores que trabalham de forma justa, ética e sustentável. A brigada do Tuju é majoritariamente composta por mulheres — uma escolha deliberada, uma declaração discreta sobre o tipo de cozinha que Ralston quer praticar: uma cozinha da atenção, da precisão, do cuidado.

Luiz Filipe Souza e o Evvai: a Beleza das Origens Misturadas

Oriundi. O nome do menu degustação do Evvai é, por si só, um programa, uma genealogia, um manifesto. Em italiano, a palavra designa os descendentes de imigrantes — esses milhões de filhos e filhas de italianos, japoneses, libaneses, poloneses que fizeram de São Paulo a cidade mais cosmopolita do mundo depois de Nova York. Luiz Filipe Souza é um deles. Brasileiro de alma e formação, ele carrega em si a Itália de seus ancestrais com a ternura de quem ama uma cultura sem ter nascido nela.

Com passagens por casas como Reale Casadonna — mesa emblemática dos Abruzos —, Girarrosto, Mozza e Ristorantino, ele representa o Brasil no Bocuse d’Or e preside a competição em seu país. Seu trabalho à frente do Evvai lhe rendeu três estrelas Michelin, além de posições de destaque nos rankings internacionais: 20º no Latin America’s 50 Best 2025, 95º no ranking mundial, e 6º na La Liste 2026, com nota 97 de 100. Isso não é um currículo: é a prova de que a excelência, quando é sincera, sempre acaba encontrando seu público.

O Evvai oferece um único menu degustação, o Oriundi, que celebra a troca cultural por meio de pratos visualmente impactantes, marcados por uma técnica e um equilíbrio notáveis. O domínio das temperaturas pelo chef é impressionante — ele as manipula como se fossem mais uma textura. Entre os pratos emblemáticos: a Bomba de Vieira, um crocante de vieiras que muda a cada estação mas permanece sempre no cardápio, e o Cupuaçu Absoluto na sobremesa — cada sequência se inscreve numa narrativa estruturada. Um cardápio ilustrado, criado pelo próprio chef, acompanha a refeição e esclarece as inspirações de cada prato, prolongando a experiência para além do paladar. Pequenos amuse-bouches abertos evocam as cores das bandeiras brasileira e italiana. É poesia comestível, e o Guia Michelin lhe deu suas três estrelas mais altas.

São Paulo, Capital Gastronômica Mundial: um Destino que se Assume

O que acontece numa cidade quando ela alcança de repente esse reconhecimento mundial? Algo sutil e irreversível. São Paulo, metrópole efervescente em perpétua mutação, se distingue por seu skyline de torres vertiginosas, uma cena de street art exuberante e um cenário culinário hoje entre os mais animados do mundo. Nessa cidade onde convivem mais de oitenta cozinhas — dos izakayas japoneses aos botecos populares onde borbulha a feijoada —, os chefs estrelados não são exceções. Eles são o símbolo de um processo coletivo: uma cidade que decide se levar a sério gastronomicamente, com todos os investimentos, as formações, as pesquisas e as exigências que isso supõe.

Esses chefs são exploradores gourmets que realizam expedições para descobrir ingredientes raros e em vias de desaparecimento — bois ancestrais, tomates patrimoniais — em benefício de um patrimônio culinário em constante redescoberta. Não é apenas gastronomia. É arqueologia. É botânica. É uma forma de dizer ao mundo inteiro que o Brasil possui uma biodiversidade culinária tão extraordinária quanto sua biodiversidade natural — e que finalmente decidiu cozinhá-la à altura do que ela merece.

Fontes: Guia Michelin oficial · Le Chef France · È Molto Goloso · Forbes Brasil / Forbes Life · Topview Brasil · Délices Latins · KTCHNrebel · Guia Michelin Rio de Janeiro & São Paulo 2026

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