Como Cristina Junqueira Transformou o Nubank no Maior Banco Digital Independente do Mundo
Uma infância em Ribeirão Preto, uma vocação precoce
Nascida em 1983 em Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo, Cristina Junqueira não estava destinada, no papel, a se tornar uma das mulheres mais influentes das finanças mundiais. Mas, desde cedo, ela se destacou pelo rigor e pelo gosto por desafios intelectuais. Escolheu o caminho da engenharia, formando-se em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), uma das formações mais exigentes do país.
Sua carreira começa nas engrenagens do sistema bancário tradicional brasileiro. Ela passa pela consultoria Booz Allen Hamilton, depois pelo Unibanco, antes de embarcar, em 2007, para os Estados Unidos, onde obtém um MBA em finanças e marketing na prestigiada Kellogg School of Management, da Northwestern University. De volta ao Brasil em 2008, ela entra no Itaú Unibanco, onde ocupa funções estratégicas na divisão de cartões de crédito — um posto de observação privilegiado sobre as disfunções de um sistema que, em breve, ela quereria desmontar por dentro.

O encontro que mudou tudo
Em 2013, enquanto era executiva do Itaú Unibanco, Cristina Junqueira sentia uma frustração crescente: o setor bancário brasileiro impunha tarifas exorbitantes, uma burocracia sufocante, e parecia ter esquecido que sua missão primeira era servir os clientes. É nesse momento exato que ela conhece o empreendedor colombiano David Vélez, que carregava consigo as cicatrizes de suas próprias experiências ruins com os bancos brasileiros e sonhava com um modelo radicalmente diferente.
Esse encontro funciona como um estalo. Ela entende que o projeto de Vélez corresponde exatamente ao que ela queria empreender: construir algo fundamentalmente diferente, capaz de desafiar o status quo de um sistema financeiro travado. Ao lado de David Vélez e do engenheiro americano Edward Wible, ela cofunda o Nubank.
Os primeiros passos são modestos, quase artesanais. O trio aluga uma pequena sala no bairro do Brooklin, em São Paulo, que apelidam carinhosamente de “casinha”. Ali, com um capital inicial limitado, cada um põe a mão na massa em todas as frentes. Cristina Junqueira, em particular, assume uma infinidade de papéis: cuida de recursos humanos, supervisiona o atendimento ao cliente, negocia com investidores e lança as bases culturais da empresa. Ela confessou, mais tarde, ter tido a sensação de ter se preparado a vida toda para aquele momento exato.

Enfrentar um sistema feito para resistir à mudança
O maior obstáculo não era tecnológico, era estrutural. O mercado bancário brasileiro estava, na época, entre os mais regulamentados e mais fechados do mundo, dominado por um punhado de instituições centenárias. Para existir, o Nubank precisava obter a autorização do Banco Central do Brasil, atender a exigências rígidas de capital e, sobretudo, convencer investidores de que uma startup inteiramente digital poderia rivalizar com gigantes centenários.
A estratégia escolhida foi de uma simplicidade implacável: usar a tecnologia para eliminar o atrito. O Nubank lança um cartão de crédito sem anuidade, sem agência física, totalmente controlável pelo aplicativo — uma proposta quase provocadora para a época, em um país onde a confiança nos serviços digitais ainda precisava ser construída.
Uma executiva que quebrou os padrões do gênero
A história de Cristina Junqueira não pode ser contada sem mencionar os desafios pessoais que ela enfrentou paralelamente à construção da empresa. Ela estava grávida do primeiro filho no exato momento em que participava ativamente das rodadas de captação fundadoras do Nubank, em um setor de capital de risco então quase exclusivamente masculino. Anos depois, a história se repete de forma quase simbólica: sua segunda gravidez coincide com a estreia do Nubank na bolsa de Nova York, em dezembro de 2021. Grávida de oito meses, ela participa ativamente das reuniões e dos eventos em torno dessa histórica abertura de capital.
Hoje mãe de quatro filhos, radicada nos Estados Unidos, ela mantém uma rotina disciplinada, acordando antes das seis da manhã. É reconhecida por seu pragmatismo e sua atenção meticulosa aos detalhes, a ponto de reler os rodapés de e-mails internos, descrevendo de bom grado sua mente como um navegador com dezenas de abas abertas simultaneamente. Longe de apresentar a maternidade como um freio, ela fala dela como um motor: segundo Cristina, tornar-se mãe desenvolve a disciplina, a organização e a resiliência — qualidades diretamente transferíveis para o mundo corporativo.

Um crescimento vertiginoso
A aposta lançada na pequena “casinha” do Brooklin deu frutos além de qualquer previsão. O Nubank passou de zero clientes em 2014 para mais de 85 milhões de clientes em 2024, e hoje ultrapassa 135 milhões de clientes, com operações no Brasil, no México e na Colômbia. A empresa se tornou a primeira instituição financeira do Brasil em número de clientes, e, sobretudo, o maior banco digital independente do mundo.
Em dezembro de 2021, o Nubank abre capital em Nova York com uma valorização superior a US$ 50 bilhões, tornando-se, à época, a maior empresa avaliada em mais de US$ 10 bilhões já fundada por uma mulher. Desde então, a valorização da Nu Holdings continuou subindo, chegando a superar a do gigante bancário tradicional Itaú — um símbolo forte da mudança em curso nas finanças latino-americanas.
Além dos números, é o impacto social que dá todo o sentido a essa conquista: mais de cinco milhões de clientes do Nubank nunca haviam tido uma conta bancária antes de entrar na plataforma. Cristina Junqueira contribuiu, assim, diretamente para trazer milhões de brasileiros antes excluídos para dentro do sistema financeiro formal.
Um reconhecimento internacional merecido
Em 2020, Cristina Junqueira se torna a única brasileira a figurar na lista Fortune 40 under 40, que destaca jovens líderes transformando o mundo dos negócios em escala global. Em 2024, ela entra para a lista das 25 mulheres mais influentes do mundo, elaborada pelo Financial Times, confirmando seu lugar entre as grandes líderes econômicas de sua geração.
Sua fortuna pessoal, alimentada por sua participação no capital da Nu Holdings, a colocou entre as mulheres mais ricas do Brasil e entre as raras empreendedoras que construíram sozinhas sua fortuna, segundo o ranking da Forbes.
Passar o bastão sem nunca soltar o fio
Em 2021, Cristina Junqueira assume a direção do Nubank no Brasil, enquanto David Vélez se torna o CEO global do grupo. Dois anos depois, em 2023, ela transmite essa responsabilidade a Lívia Chanes, marcando uma nova etapa na governança da empresa. Longe de se afastar, ela se concentra, desde agosto de 2022, em seu papel de Chief Growth Officer, conduzindo a estratégia de crescimento e a expansão internacional do grupo, principalmente no mercado americano.
Essa escolha de delegar a direção local, mantendo-se plenamente engajada na visão estratégica da empresa, ilustra uma maturidade rara entre fundadores: saber quando construir, quando dirigir e quando confiar em outras pessoas para levar o legado adiante.
Uma lição de ousadia para toda uma geração
A história de Cristina Junqueira é a de uma mulher que se recusou a aceitar que as coisas deveriam permanecer como sempre foram. Ela transformou uma frustração pessoal diante de um sistema considerado injusto em uma das maiores conquistas empreendedoras da história recente da América Latina — ao mesmo tempo em que se tornava mãe quatro vezes, em plena construção de um império financeiro.
Sua trajetória demonstra que é possível conciliar ambição profissional e vida familiar sem sacrificar uma pela outra, e que a diversidade no topo das empresas não é apenas uma questão de justiça social, mas um verdadeiro motor de resiliência e desempenho. Ela mesma fez questão de destacar a importância de formar equipes tão diversas quanto possível, convencida de que essa pluralidade constitui uma vantagem competitiva duradoura.
Treze anos após a fundação do Nubank em uma pequena casa alugada no Brooklin, a história de Cristina Junqueira lembra uma verdade simples, mas poderosa: as indústrias mais fechadas, mais rígidas, mais resistentes à mudança, são frequentemente aquelas que oferecem o maior espaço para a inovação — desde que se tenha a coragem de enfrentá-las, com paciência e obstinação, até o fim.
