A supercana brasileira: e se o Brasil detivesse a chave do combustível sustentável para a aviação mundial?

Três vezes mais etanol por hectare, doze vezes mais biomassa, embalagens biodegradáveis e combustível para os aviões da Emirates: a supercana brasileira — nascida de cinquenta anos de pesquisa silenciosa — pode reposicionar o Brasil no centro da transição energética mundial.

Há momentos em que uma inovação muda silenciosamente as regras do jogo — muito antes que o mundo perceba. A penicilina foi descoberta num laboratório desorganizado de Londres. O GPS foi desenvolvido para o exército americano antes de revolucionar a navegação cotidiana de oito bilhões de pessoas. E a cana-de-açúcar brasileira — essa planta milenar que já mudou a história econômica de um continente — talvez esteja vivendo sua maior transformação desde a invenção do etanol.

No centro dessa possível virada, uma variedade batizada de supercana. Desenvolvida no Brasil ao cabo de mais de cinquenta anos de pesquisa em melhoramento genético convencional. E hoje no centro de um projeto que atrai 500 milhões de dólares de investimento do Oriente Médio, o interesse de uma das maiores companhias aéreas do mundo e a atenção dos mercados financeiros internacionais.

O homem por trás da planta: Sizuo Matsuoka

Antes de ser um projeto de investimento, a supercana é a história de um homem. Sizuo Matsuoka, agrônomo brasileiro neto de imigrantes japoneses, começou a estudar a cana-de-açúcar em 1968 no Instituto Agronômico de Campinas. Durante mais de cinco décadas, ele dedicou sua carreira a uma pergunta precisa: como obter de uma mesma planta não mais açúcar, mas mais biomassa — a fibra, o bagaço, a matéria que resta após a extração do caldo.

Professor na Universidade Federal de São Carlos, ele participou em seguida da fundação da CanaVialis — uma iniciativa de pesquisa genética sobre a cana-de-açúcar que atraiu a atenção da Monsanto, que a comprou em 2008. Mas Matsuoka já havia deixado a empresa para continuar sua pesquisa de forma independente, convicto de que seu trabalho sobre a cana-energia iria “se perder” nas prioridades comerciais de uma grande multinacional.

Sua resposta, após décadas de cruzamentos genéticos — a partir de germoplasmas vindos dos Estados Unidos, da França e de Barbados — produziu 17 novas variedades capazes de feitos que a cana convencional não consegue realizar: três vezes mais etanol por hectare e doze vezes mais biomassa do que a variedade tradicional.

Isso não é ficção científica. É o resultado de mais de cinquenta anos de trabalho nos campos e nos laboratórios brasileiros — por um homem que nunca abandonou sua convicção, mesmo quando ninguém olhava.

A supercana é hoje cultivada experimentalmente numa usina de referência em Araras, no Estado de São Paulo. E foi por meio de um anúncio muito midiatizado do empresário Eike Batista — que entrou no projeto em 2015 e atraiu investimentos árabes de 500 milhões de dólares — que o mundo finalmente começou a ouvir falar do que Sizuo Matsuoka construía em silêncio há décadas.

Três usos que mudam tudo

O que torna a supercana verdadeiramente revolucionária é a combinação de suas três aplicações — todas em mercados mundiais em crescimento acelerado.

O combustível sustentável para aviação — SAF

A aviação representa cerca de 2% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, e existe uma corrida mundial para descarbonizar esse setor. O SAF — Sustainable Aviation Fuel, ou Combustível Sustentável de Aviação — é hoje a solução mais promissora para os voos de longa distância, que não podem ser eletrificados num futuro próximo. Mas sua produção mundial ainda é amplamente insuficiente.

A Emirates, uma das maiores companhias aéreas do mundo, busca ativamente fontes de SAF em larga escala para descarbonizar sua frota. E é precisamente essa demanda que o projeto da supercana pretende satisfazer. O etanol produzido pela supercana iria diretamente para o SAF para abastecer os aviões da Emirates — uma conexão direta entre os campos brasileiros e os reservatórios dos aviões que sobrevoam o mundo.

As embalagens biodegradáveis

O bagaço da supercana — doze vezes mais abundante do que o da cana convencional — pode substituir o plástico nas embalagens. Num mundo em que a União Europeia proíbe progressivamente os plásticos de uso único e onde os consumidores exigem alternativas sustentáveis, essa aplicação representa um mercado potencial de várias dezenas de bilhões de dólares. As embalagens produzidas a partir do bagaço devem entrar em produção já em 2026.

O etanol de nova geração

O Brasil já é o segundo maior produtor mundial de etanol. A supercana pode triplicar sua produtividade por hectare — o que significa produzir três vezes mais combustível na mesma superfície, com o mesmo trabalho, o mesmo solo, o mesmo sol.

500 milhões de dólares e Abu Dhabi

O projeto não falta em ambição financeira. O Abu Dhabi Investment Group investiu no primeiro módulo do projeto, avaliado em 1,6 bilhão de dólares após o aporte. Sua participação está diretamente ligada à produção de SAF para a companhia Emirates.

O plano prevê cultivar 70.000 hectares ao redor do Porto do Açu, no norte do Estado do Rio de Janeiro, com uma capacidade projetada de mais de um bilhão de litros de etanol por ano e cerca de 979.000 toneladas de biomassa destinada à fabricação de embalagens biodegradáveis. Três usinas de transformação serão construídas no local, cada uma capaz de processar 4 milhões de toneladas de cana.

Um segundo módulo está planejado e incluirá terras no Brasil e uma unidade de processamento nos Estados Unidos, na Flórida, dedicada à transformação da biomassa.

O calendário é preciso: a produção de embalagens está prevista para 2026, enquanto o combustível de aviação deve começar a ser fabricado em 2028. Até 2031, a empresa estima ter cerca de 70.000 hectares plantados.

Por que o Brasil é o único país do mundo que pode fazer isso

Há uma razão profunda pela qual este projeto nasce no Brasil e em nenhum outro lugar. Este país já provou, uma primeira vez, que sabia transformar uma planta em revolução energética mundial.

Nos anos 1970, no momento do choque do petróleo, o Brasil lançou o programa Proálcool — o maior programa de biocombustível da história — e transformou sua dependência do petróleo em soberania energética baseada na cana-de-açúcar. Hoje, o Brasil é o país onde o combustível para os carros pode ser 100% vegetal. Onde os motores flex-fuel são a norma. Onde o etanol é uma cadeia industrial madura, competitiva e exportada para o mundo inteiro.

A supercana é o próximo passo dessa mesma trajetória. Ela utiliza a infraestrutura existente, o conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, a biodiversidade tropical única do país — e o orienta para os mercados do amanhã: a aviação sustentável, as embalagens verdes, a química verde.

O que isso significa para a Europa

Para as empresas europeias, os investidores institucionais e as companhias aéreas francesas, belgas e suíças, este projeto representa uma oportunidade concreta.

A União Europeia impõe cotas crescentes de SAF para todos os voos a partir de seus aeroportos. Air France, Brussels Airlines, Swiss — todas essas companhias buscam ativamente fontes de SAF em larga escala, a um preço competitivo. O Brasil, com sua capacidade agrícola, sua expertise em etanol e sua supercana, pode se tornar seu principal fornecedor nos anos que virão.

E para os investidores francófonos que olham para o Brasil com interesse, o acordo comercial UE-Mercosul — que entrou em vigor provisoriamente em maio de 2026 — abre corredores comerciais e financeiros entre a Europa e o Brasil que não existiam anteriormente.

A cana que quer mudar o mundo

Há neste projeto algo profundamente brasileiro — a capacidade de encontrar na natureza o que o resto do mundo busca em laboratórios de alta tecnologia. A supercana não é um algoritmo. Não é um metal raro extraído a grandes custos. É uma planta. Uma planta aprimorada por mãos humanas, ao longo de décadas, com a paciência que somente uma convicção profunda permite manter.

Sizuo Matsuoka começou suas pesquisas em 1968. Ele nunca desistiu. E é seu trabalho silencioso — e não os anúncios estrondosos — que está atraindo Abu Dhabi, Emirates e os olhares do mundo inteiro para um canavial no norte do Rio de Janeiro.

O Brasil já mudou a história da aviação uma vez — ao desenvolver a Embraer, que se tornou um dos três maiores fabricantes de aviões do mundo. Talvez esteja mudando-a uma segunda vez — ao fornecer o combustível que fará voar esses aviões sem destruir o planeta.

A supercana ainda não é uma certeza. Mas ela é algo precioso num mundo que busca soluções: uma promessa fundada em ciência real, em solo brasileiro e em cinquenta anos de trabalho silencioso.

E às vezes, é exatamente daí que as revoluções nascem.

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