Granado: a Farmácia do Imperador do Brasil que conquistou Paris, Londres e Nova York
Fundada em 1870 no Rio de Janeiro, fornecedora oficial da família imperial brasileira, parceira de Christian Louboutin e presente no Bon Marché desde 2013: a Granado é a marca brasileira que a Europa adotou sem nem perceber.
Existem marcas que nascem com uma ambição global. E existem marcas que nascem com uma vocação local tão poderosa, tão enraizada na alma de um país, que acabam conquistando o mundo exatamente porque nunca tentaram se parecer com ele. A Granado pertence à segunda categoria — e é exatamente isso que a torna irresistível.
Tudo começa em 1870, no coração do centro do Rio de Janeiro. José Antônio Coxito Granado, farmacêutico português radicado no Brasil, abre uma farmácia numa cidade que é então não apenas a capital de um país, mas a sede de um império. Desde o início, a casa desenvolve fórmulas com extratos vegetais de plantas, ervas e flores brasileiras cultivadas em Teresópolis — uma das primeiras farmácias-botânicas do hemisfério sul a construir sua identidade sobre a biodiversidade local, em vez de imitar as receitas europeias importadas por navio.
A qualidade dessas preparações não passa despercebida. Em 1880, o Imperador Dom Pedro II concede à farmácia o título de Farmácia Oficial da Família Imperial Brasileira — uma distinção honorífica que, cento e cinquenta anos depois, continua sendo uma das pedras fundamentais da identidade da marca. Entre os clientes que frequentam a loja da época, nomes que fazem a história do Brasil: o jurista Rui Barbosa, o abolicionista José do Patrocínio. A Granado não é apenas uma farmácia. É uma testemunha privilegiada do nascimento de um país.

O pó antisséptico, o sabonete de glicerina e a arte de nunca mudar o que funciona
Em 1903, João Bernardo Granado — irmão do fundador — cria o pó antisséptico Granado. Sua fórmula, validada por Oswaldo Cruz, pai da saúde pública brasileira, permanece inalterada até hoje. É um dos produtos mais antigos ainda comercializados no mundo com sua fórmula original — uma longevidade que não tem nada de nostálgico. É a prova de que certas fórmulas atingem uma forma de perfeição que torna qualquer modificação desnecessária.
Os sabonetes de glicerina vegetal, as águas de colônia com notas tropicais, os cremes com manteiga de karité e extratos amazônicos: cada produto Granado conta uma decisão editorial — a de nunca sacrificar a qualidade pela velocidade, nem a identidade pela tendência. Num mercado cosmético global saturado de lançamentos semanais e inovações de marketing disfarçadas de revoluções científicas, essa obstinação pela durabilidade tornou-se, paradoxalmente, o argumento mais radical que a marca pode apresentar.
1994: um inglês, um testamento e uma condição surpreendente
A história da Granado poderia ter parado por aí — numa bela farmácia carioca, querida pelos brasileiros mas ignorada pelo resto do mundo. O que impediu isso tem a ver com um detalhe ao mesmo tempo curioso e visionário: em seu testamento, José Antônio Coxito Granado havia expressado o desejo explícito de que a empresa fosse assumida por um estrangeiro — para que pudesse se desenvolver em escala internacional.
Em 1994, foi Christopher John Ogle Freeman, um britânico, quem honrou essa cláusula testamentária e assumiu o comando da casa. Em 2005, sua filha Sissi Freeman se juntou à aventura. Essa dupla familiar anglo-brasileira seria responsável pela transformação mais espetacular da história da Granado: a marca que cuidava do Imperador começaria a conquistar Paris.

O Bon Marché, Ines de la Fressange, Christian Louboutin: como a Granado virou a queridinha de Paris
Tudo começa em 2013, com um convite do Bon Marché — o grand magasin parisiense que recebe as marcas mais desejadas do mundo — para participar de uma exposição chamada Le Brésil Rive Gauche. O objetivo era expor seus produtos num evento em homenagem ao Brasil. O sucesso nas vendas foi imediato, o que permitiu à marca conquistar um espaço maior e mais visível, onde permaneceu por vários anos.
O que deveria ser uma presença passageira tornou-se uma instalação permanente. As parisienses — essas mulheres que os observadores da moda descrevem como as compradoras mais difíceis de convencer e as mais fiéis uma vez conquistadas — adotaram imediatamente as embalagens retrô-chic da Granado, seus frascos com motivos antigos, seus sabonetes com relevos e, sobretudo, seus perfumes. É na perfumaria que a Granado revela sua natureza mais profunda e mais sedutora.
A marca se torna rapidamente parceira de Christian Louboutin — o criador de sapatos mais desejado do mundo — e referenciada por Ines de la Fressange, a própria encarnação do chique francês. Dois selos de aprovação de valor inestimável no universo do luxo parisiense, que dizem tudo sobre como a elite cultural francesa enxerga a Granado: não como uma curiosidade exótica brasileira, mas como uma casa de perfumaria e cosméticos num patamar comparável ao das maiores referências europeias.

Paris, Londres, Lisboa, Nova York: a geografia de uma conquista
Hoje, a Granado conta com três lojas em Paris, três em Londres, uma em Lisboa e duas em Nova York, com uma loja em Miami também em projeto. Em Paris, os endereços ficam nos bairros que definem o gosto francês contemporâneo: o Marais, Saint-Honoré e o setor Bon Marché. Em Londres, a marca inaugurou sua nova instalação na Liberty — o grand magasin britânico mais icônico — com uma bela operação temática sobre o Carnaval do Rio.
Essa rede de lojas não é uma presença decorativa. A categoria de perfumes representa 74% das vendas em Londres — uma proporção que diz tudo sobre como o público britânico, conhecido pela sofisticação olfativa, percebe a Granado: antes de tudo como uma casa de perfumaria de exceção, e só depois como uma marca de cuidados corporais.
Na Espanha, uma parceria com o Corte Inglés permite entrar pela primeira vez nesse mercado. Na Itália, na Grécia e na Áustria, os produtos Granado e Phebo estão presentes em distribuição seletiva. A Europa, em toda a sua diversidade, disse sim a uma marca nascida no Rio de Janeiro em 1870 — e esse sim não tem cara de curiosidade. Tem cara de convicção.
Phebo: a irmã amazônica, o sabonete que cheirava à floresta
A história da Granado não estaria completa sem a da Phebo — essa marca irmã nascida em 1930 em Belém, no coração da Amazônia, pelas mãos de dois primos portugueses, Antonio e Mario Santiago. Seu nome vem de Febo, deus grego do Sol — porque seus fundadores queriam criar algo capaz de rivalizar com as perfumarias inglesas e francesas que dominavam então o mercado mundial.
O carro-chefe da Phebo — um sabonete oval à base de essência de pau-rosa, sândalo, cravo-da-índia e canela de Madagascar, de uma cor marrom opalescente quase chocante à primeira vista — tornou-se um dos objetos de beleza mais cultuados do Brasil. Em 2004, quando a marca Phebo foi adquirida pela Granado, o grupo tratou de retornar à fórmula original, que havia sido alterada pelos conglomerados americano e holandês Procter & Gamble e Sara Lee. Esse retorno às origens foi uma decisão ao mesmo tempo estratégica e cultural — um ato de resistência contra a padronização global.
Hoje, a Phebo representa 30% do faturamento do grupo e conta com uma dezena de lojas no Brasil. Na Europa, seus produtos são distribuídos ao lado dos da Granado — duas vozes brasileiras, duas histórias distintas, um único compromisso com a excelência.
O que a Europa entendeu antes de todo mundo
Há algo profundamente revelador na forma como a Granado conquistou a Europa. A marca não adaptou suas embalagens para seduzir o público europeu. Não reformulou seus perfumes para se adequar às tendências do mercado. Não contratou um diretor criativo parisiense para “modernizar” sua identidade visual. Chegou como era — com seus frascos retrô, seus almofarizes de farmacêutico em vitrine, suas publicidades de época nas paredes, suas fórmulas centenárias.
E foi exatamente por isso que Paris, Londres e Nova York a adotaram.
O que faz a força da Granado: as embalagens desejáveis, as fragrâncias sofisticadas, as texturas impecáveis. Do lado das embalagens, tudo é pensado para nos transportar ao passado: motivos retrô e coloridos, tipografia vintage. Num mercado cosmético onde todo mundo quer parecer novo, a Granado entendeu algo essencial: a antiguidade, quando é autêntica, é o luxo mais raro que existe.
A marca registra um crescimento de +30% em 2023 e +28% no primeiro semestre de 2024 em seu mercado de origem, ao mesmo tempo em que reforça sua presença internacional. Esses números não são os de uma marca nostálgica que vive de reputação. São os números de uma casa que entendeu que o futuro pertence a quem sabe quem é.
Onde encontrar a Granado na Europa
Paris — Três concept stores: Rue du Bac (7º), Le Marais (4º), Rue du Faubourg Saint-Honoré (8º). Presença permanente no Bon Marché e na Ines de la Fressange.
Londres — Três lojas nos bairros mais icônicos da cidade, incluindo uma instalação na Liberty.
Lisboa — Uma loja no bairro do Chiado, ao lado de outras grandes casas brasileiras.
Nova York — Duas lojas, com Miami em desenvolvimento.
