O Brasil, Protagonista Mundial nas Exportações de Carne Halal

O Brasil se consolidou, nos últimos anos, como um dos principais exportadores mundiais de carne halal — com destaque para frango e carne bovina. Esse status, confirmado por diversas fontes oficiais (Ministério da Agricultura, ApexBrasil, ABPA — Associação Brasileira de Proteína Animal), se apoia em décadas de investimento em abatedouros certificados e em uma demanda crescente vinda de países de maioria muçulmana.

É preciso, no entanto, fazer uma ressalva conforme o recorte considerado: apenas na carne (aves e bovinos), o Brasil é geralmente citado como o número um mundial. Mas no conjunto do mercado halal em sentido amplo (produtos processados, cosméticos e produtos farmacêuticos incluídos), uma análise recente (março de 2026, Gazeta do Povo) coloca o Brasil na terceira posição (US$ 26,9 bilhões), atrás da China (US$ 32,5 bilhões) e da Índia (US$ 28,9 bilhões). A classificação, portanto, depende fortemente da definição adotada.

Um mercado em expansão constante

O Brasil exporta carne halal para mais de 30 países, entre eles Egito, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Líbano, Omã e Malásia. Somente em 2023, mais de 2,2 milhões de toneladas de frango halal foram exportadas, em um valor que ultrapassou US$ 3,9 bilhões. O Paraná, sozinho, concentra cerca de 37% das exportações brasileiras de aves halal.

Rumo a produtos de maior valor agregado

Se as matérias-primas (carne bruta) ainda dominam mais de 90% das exportações, o setor busca agora desenvolver produtos processados e certificados — biscoitos, laticínios, pratos prontos — voltados especialmente a mercados exigentes como Malásia e Indonésia, onde a certificação halal condiciona o acesso às prateleiras principais dos supermercados.

Uma relação comercial estratégica com a Malásia

A Malásia está entre os mercados que registraram recentemente um forte crescimento nas importações de produtos halal brasileiros, com uma alta expressiva nas vendas nos últimos anos (+64,9% entre 2020 e 2025, segundo a ABIA, Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação). O país exige uma certificação rigorosa, o que levou vários abatedouros brasileiros a investir em infraestrutura e treinamento específicos para atender a esses padrões. No mês anterior a maio de 2024, aliás, quatro novos abatedouros brasileiros foram homologados especificamente para exportar frango halal à Malásia, segundo o Ministério da Agricultura.

Uma história que remonta a várias décadas

A presença brasileira nesse mercado não é recente: já em 2018, o Brasil se mantinha, pelo segundo ano consecutivo, como o maior produtor e exportador mundial de carne halal, à frente de Estados Unidos e Austrália. O país construiu sua reputação sobre laços de confiança tecidos ao longo de décadas com as comunidades muçulmanas, além de sua liderança já consolidada nas exportações mundiais de carne bovina e de aves em geral.

A ascensão de uma megaaliança industrial

O setor deu um passo simbólico com a criação da joint venture Sadia Halal JV, nascida da parceria entre a gigante brasileira BRF e o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF). Avaliada em US$ 21 bilhões, essa aliança tornou a entidade conjunta a maior empresa de frango halal do mundo, ilustrando a ambição do Brasil de não mais se limitar a exportar matéria-prima, mas de passar a pesar diretamente na cadeia de valor dos países importadores.

O salto de qualidade: da matéria-prima aos produtos processados

Historicamente, mais de 90% das exportações halal brasileiras correspondiam a matérias-primas brutas (carne não processada). O setor busca agora reverter essa tendência: entre 2020 e 2025, a participação dos alimentos industrializados certificados halal (biscoitos, laticínios, massas, produtos amazônicos certificados) no faturamento do setor passou de 19% para 27%, segundo dados da ABIA. O cálculo econômico é claro: uma tonelada de frango processado, temperado, embalado sob marca própria e certificado halal se vende por um preço bem mais alto do que a mesma tonelada exportada in natura — e fideliza mais o consumidor final. Nos mercados mais exigentes, como Malásia e Indonésia, os produtos certificados ocupam, inclusive, as prateleiras principais dos supermercados, enquanto os produtos não certificados ficam relegados a áreas separadas.

Vulnerabilidades geopolíticas

Esse comércio, no entanto, permanece exposto a tensões internacionais. O conflito que eclodiu no Oriente Médio em fevereiro de 2026, por exemplo, provocou um gargalo logístico para os exportadores brasileiros de carne bovina halal — um segmento que movimenta cerca de US$ 2 bilhões por ano — após o fechamento do Estreito de Ormuz, dificultando o transporte das cargas até essa região estratégica.

Um mercado mundial em plena expansão

O mercado mundial de alimentos halal representou US$ 1,53 trilhão em 2024, com projeção de alcançar US$ 2,06 trilhões até 2029. Nesse contexto de crescimento, o Brasil busca consolidar sua posição como parceiro estratégico dos países muçulmanos, apostando em sua infraestrutura agroindustrial, em sua proximidade logística com os mercados árabe e asiático, e na fidelidade dos consumidores muçulmanos às marcas já certificadas.

O Brasil não se explica — vivencia-se.

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