Jabuticaba: a fruta mágica que nasce direto no tronco das árvores

Imagina uma árvore cujo tronco e galhos se cobrem, direto na casca, de cachos de bagas roxinhas e brilhantes — como se a própria madeira tivesse resolvido dar uva. Não, não é imagem gerada por IA nem planta de ficção científica: é a jabuticaba, um dos segredos mais bem guardados (e mais gostosos) da biodiversidade brasileira. E sim, girls, ela merece todo o hype.

Existem frutas que viajam bem o mundo inteiro e frutas que são “de vila mesmo”, raiz, que não saem de casa por nada. A jabuticaba é rainha absoluta da segunda categoria — não por falta de qualidade, mas porque sua polpa começa a fermentar só três ou quatro dias depois de colhida, o que torna a exportação praticamente impossível. Resultado: fora do Brasil, é praticamente impossível provar a fruta fresca. E é exatamente essa exclusividade que a transforma num dos maiores tesouros gastronômicos do país.

Uma fruta que desafia toda a lógica botânica

No mundo da botânica, a jabuticaba pertence ao gênero Plinia, da família das Mirtáceas — a mesma da goiaba e do cravo-da-índia —, e a espécie mais famosa atende pelo nome de Plinia cauliflora. O nome não é à toa: “caulifloria” é o termo científico para esse fenômeno raro em que flores e frutos nascem direto no tronco e nos galhos principais da árvore, em vez de brotar nas pontinhas dos ramos, como acontece com quase todo mundo no reino vegetal.

A árvore, batizada de jabuticabeira, é nativa da Mata Atlântica, principalmente nos estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Ela demora de seis a oito anos para dar os primeiros frutos — uma demora que, somada à fragilidade da fruta após a colheita, explica por que ela continua sendo tão preciosa (e tão pouco exportada, até dentro do próprio Brasil). Em clima quente e úmido, a árvore pode florescer e frutificar várias vezes por ano, o que garante jabuticaba disponível por um período bem generoso — um verdadeiro luxo para uma fruta tão perecível.

Cada baguinha, do tamanho de uma uva grande, esconde sob a casca preta e grossa uma polpa branca, translúcida e supersuculenta, envolvendo uma ou duas sementes. O sabor? Já foi descrito como um mix entre uva moscatel, mangostão e uma acidez sutil que lembra lichia. Surpreendente do começo ao fim — igualzinho ao jeito como ela cresce.

A fruta consagrada pela crítica gastronômica mundial

A jabuticaba não é só uma curiosidade botânica bonitinha para postar no feed: ela é, oficialmente, uma das melhores frutas do planeta. No TasteAtlas, a enciclopédia gastronômica online que avalia especialidades culinárias do mundo inteiro, a jabuticaba está hoje entre as cem melhores frutas do planeta, com nota 4,3 — e chegou a alcançar o segundo lugar do ranking mundial em novembro de 2023, superando frutas muito mais famosas lá fora, como o morango e a laranja. Bombou, e com toda razão.

Segundo a pesquisadora Ana Carolina Chaves, da Embrapa, não é a polpa doce — a parte mais gostosa, convenhamos — que concentra a maior riqueza nutricional da fruta, mas sim a casca grossa e escura. Ela é extraordinariamente rica em antocianinas, os pigmentos responsáveis pela cor roxa intensa da baga, cujo poder antioxidante vem sendo estudado por possíveis efeitos no fortalecimento da imunidade, na redução do colesterol e na prevenção do diabetes tipo 2. Pesquisadores da Unicamp, em parceria com a Universidade de Cádiz, na Espanha, desenvolveram até um método capaz de purificar essas antocianinas em 90% — desempenho superior a nove outros métodos existentes no mundo —, abrindo caminho para seu uso como corante natural nas indústrias alimentícia e cosmética. A recomendação da pesquisadora, para aproveitar todos os benefícios, é comer cerca de dez jabuticabas por dia, casca incluída.

Com apenas 58 calorias a cada 100 gramas de fruta crua, e rica em fibras, vitamina C, ferro, fósforo e vitaminas do complexo B, a jabuticaba marca todos os pontos de um verdadeiro superalimento — só que, no Brasil, ela simplesmente cresce nos quintais e nas praças públicas há gerações, sem status de produto premium nenhum.

Da baga ao copo: um universo inteiro de produtos derivados

É justamente porque a jabuticaba fresca não viaja bem que as famílias brasileiras, há mais de um século, viraram mestras em transformá-la. O resultado é um catálogo impressionante de produtos, que vai muito além da geleia clássica.

A geleia e o doce (aquele bem grosso, de cortar), feitos cozinhando a polpa — e às vezes a casca — com açúcar, continuam sendo os usos mais tradicionais nos lares brasileiros. Mas a jabuticaba também é ótima matéria-prima para fermentação: o licor de jabuticaba, feito macerando as frutas em álcool, é tradição de família bem viva em Minas Gerais, enquanto o vinho de jabuticaba — um verdadeiro vinho de fruta, obtido por fermentação natural durante cerca de um ano — já conquistou fama muito além das fronteiras regionais. A baga também combina lindamente com a cachaça: a caipirinha de jabuticaba, feita amassando as frutas frescas com cachaça, açúcar e gelo, virou uma das versões mais queridas do clássico coquetel brasileiro.

No universo doce, a jabuticaba também vira sorvete artesanal, sobremesas geladas, calda para panquecas e bolos, e até cappuccino aromatizado em algumas fazendas especializadas. No salgado, produtores artesanais vão além e criam molho barbecue, mostarda, caponata e até farinha, feita secando e moendo a casca da fruta — nada, absolutamente nada, se perde. Algumas propriedades produzem até vinagre de jabuticaba, usado na cozinha como um vinagre de vinho tradicional, mas com aquela nota frutada e levemente tânica que só a baga brasileira tem.

O maior pomar de jabuticaba do mundo

Se existe um lugar que representa essa cultura da jabuticaba em toda a sua grandiosidade, é a Fazenda Jabuticabal, no distrito de Nova Fátima, em Hidrolândia, Goiás. A história começa em 1947, quando Antônio Batista da Silva, pedreiro e feirante, planta as primeiras jabuticabeiras nessas terras ao lado da esposa, Maria da Luz de Jesus. Com o passar das décadas, a plantação cresce tanto que boa parte da colheita acaba se perdendo, sem tempo de ser consumida ou vendida.

É essa abundância toda que leva, em 1999, o filho do casal, Paulo Antônio Silva, a apostar em um projeto industrial: em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), ele funda a Vinícola Jabuticabal, se tornando o primeiro produtor do país a elaborar bebidas fermentadas à base de jabuticaba em escala comercial. Hoje, a propriedade conta com mais de quarenta mil pés de jabuticabeiras, o que a torna, segundo diversas fontes brasileiras, o maior pomar dessa espécie no mundo. O local se transformou em um verdadeiro point de enoturismo rural, com restaurante, chocolateria, empório e degustações, onde os visitantes podem provar, numa única visita, caipirinha, sorvete, geleia, cappuccino, cachaça e até molho barbecue — tudo colhido a poucos metros dali, direto da casca das árvores.

Sabará, a capital histórica e festiva da jabuticaba

Se Goiás tem o maior pomar, é na cidade histórica de Sabará, em Minas Gerais, que a jabuticaba ocupa o lugar mais central na identidade cultural local. Desde 1987, a cidade organiza todos os anos, geralmente em novembro, o famoso Festival da Jabuticaba, que reúne no centro histórico produtores, chefs e artistas em torno de pratos e bebidas feitos com a fruta — um evento que já atrai cerca de cem mil visitantes em três dias. Uma das atrações mais inusitadas do festival é a possibilidade de “alugar” por alguns instantes um pé de jabuticaba nos quintais dos moradores, para colher e comer a fruta direto na árvore, à vontade.

Foi também em Sabará que nasceram algumas das casas artesanais mais respeitadas do país. A marca local Quintal Torres, por exemplo, mantém viva uma tradição de família com mais de um século e hoje oferece mais de vinte produtos diferentes feitos com jabuticaba — da geleia simples à mostarda, passando pela farinha e pelo vinagre. Dona Dirléia, artesã da região há quase trinta anos, começou preparando cachaça, vinho, geleia e licor só para a vizinhança, até ver sua fama crescer a ponto de receber hoje encomendas vindas de fora do país.

Quando uma fruta vira expressão nacional

O lugar da jabuticaba no imaginário brasileiro vai muito além da gastronomia. A expressão “coisa de jabuticaba” entrou no vocabulário popular para descrever tudo aquilo que é exclusivamente e tipicamente brasileiro, sem equivalente em nenhum outro lugar do mundo. Talvez essa seja a melhor forma de resumir essa fruta: assim como o país que a viu nascer, a jabuticaba não se parece com nada, não viaja fácil, e é justamente dessa raridade que vem seu valor.

Para quem está acostumado com frutas vermelhas europeias ou com os clássicos exóticos já superimportados — manga, maracujá, lichia —, a jabuticaba ainda é uma descoberta quase total. Mas entre seu jeito de crescer que desafia toda lógica botânica conhecida, o lugar de destaque entre as melhores frutas do mundo e todo o universo de produtos artesanais que já inspirou há mais de um século, ela tem tudo para se tornar, cedo ou tarde, uma das grandes embaixadoras da gastronomia brasileira lá fora — desde que a ciência descubra, enfim, um jeito de fazê-la viajar tão bem quanto ela sabe se fazer desejar.

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