The Best Pizza Awards 2026: o Brasil se instala entre as grandes nações da pizza mundial
Existem tradições que não se questionam. A pizza napolitana é uma delas — nascida em Nápoles, codificada por séculos de saber-fazer, protegida por uma indicação reconhecida pela UNESCO. Ninguém pensa seriamente em disputar esse patrimônio com a Itália. E ninguém deveria.
Mas existe, ao lado dessa certeza, outra realidade que se impõe silenciosamente — resultado após resultado, forno após forno, fermentação após fermentação: alguns países aprenderam a dominar essa arte com tal profundidade que se tornaram, por sua vez, referências mundiais.
O Brasil está se tornando um deles.
No dia 24 de junho de 2026, em Milão, na cerimônia do The Best Pizza Awards — uma das competições mais respeitadas da indústria mundial da pizza, com mais de 500 jurados de 60 países —, cinco pizzaiolos que atuam no Brasil entraram no top 100 mundial. Vindos de São Paulo e Rio de Janeiro, formados na tradição napolitana, capazes de produzir algo que até os italianos mais exigentes não podem mais ignorar.
O mundo da pizza não esperava. O Brasil estava trabalhando.
O que é o The Best Pizza Awards — e por que essa premiação importa
Ligado ao prestigiado The Best Chef Awards, o prêmio reúne mais de 500 jurados de 60 países — chefs, jornalistas, pesquisadores e especialistas do setor — para avaliar critérios como técnica de fermentação, qualidade dos ingredientes, constância no forneamento, atendimento no salão e impacto cultural das pizzarias. Cada jurado indica dez profissionais considerados decisivos para a evolução do ofício no último ano.
Se durante décadas o Brasil ficou conhecido por adaptar a pizza ao paladar local, hoje foi exatamente essa capacidade de equilibrar tradição italiana e identidade própria que chamou a atenção do chamado “Oscar dos pizzaiolos”.
Os cinco brasileiros que entraram para a história
Os cinco representantes brasileiros reconhecidos no ranking são: 42º lugar: Dani Branca, da Soffio Pizzeria, em São Paulo; 51º lugar: Fellipe Zanuto, d’A Pizza da Mooca, em São Paulo; 55º lugar: Matheus Ramos, da QT Pizza Bar, em São Paulo; 78º lugar: Pedro Siqueira, do Sìsì, no Rio de Janeiro; 83º lugar: André Guidon, da Leggera Pizza Napoletana, em São Paulo..

Dani Branca — O mestre transplantado, 42º no mundo
Nascido na Itália e radicado no Brasil há mais de duas décadas, Dani Branca construiu sua trajetória a partir do interior de São Paulo. À frente da Paestum Forneria, em Guaratinguetá, tornou-se referência em pizza napolitana contemporânea, obcecado por fermentações longas, rigor técnico e seleção criteriosa de ingredientes.
Sua projeção internacional se firmou em 2023, quando conquistou o título de Melhor Pizzaiolo da América Latina no Campeonato Mundial Pizza DOC, realizado em Nápoles. No ano seguinte, repetiu o feito e foi eleito o terceiro melhor pizzaiolo do mundo na categoria pizzas contemporâneas. Não se trata de um brasileiro imitando Nápoles: é um napolitano que encontrou em solo brasileiro as condições para ir ainda mais longe.
Entre as peças emblemáticas de seu repertório está a Pomodori, eleita Pizza do Ano pelo guia 50 Top Pizza 2026. A receita reúne molho de tomate, crocante de tomate, tomate-cereja amarelo, tomate fermentado e defumado, e aioli de tomate — um estudo de variações sobre um único ingrediente, de coerência e profundidade raras. Em 2026, ele inaugura também o Marmotta Pasta Bar, dedicado à cozinha italiana com forte enfoque em pizzas e massas.

Fellipe Zanuto — O pioneiro dos estilos, 51º no mundo
São Paulo tem com Fellipe Zanuto uma dívida que talvez ainda não meça em sua totalidade. Ele é amplamente considerado um dos grandes responsáveis pela febre e popularização da pizza napolitana em solo paulistano. Mas Zanuto nunca foi homem de um estilo só — essa é sua marca mais profunda.
À frente da pizzaria A Pizza da Mooca, com filiais na Mooca, em Pinheiros e na Vila Mariana, ele expandiu seu império com a Da Mooca Pizza Shop, pioneira no foco em estilo teglia romana, e com a Onesttà, uma ode à pizza de bairro tradicional e nostálgica de São Paulo. Comanda ainda a Hospedaria, casa dedicada à cozinha dos imigrantes. Cada endereço é um capítulo de uma história que Zanuto escreve há anos com o rigor de um historiador e o instinto de um cozinheiro.

Matheus Ramos — A reconversão perfeita, 55º no mundo
Há na trajetória de Matheus Ramos algo que se assemelha a um ato de fé. Carioca de alma e publicitário de formação, ele abandonou uma carreira estruturada no mercado financeiro para abrir o QT Pizza Bar, no elegante bairro dos Jardins, em São Paulo. Num setor em que a experiência se constrói em décadas, trocar a segurança de um escritório por um forno a lenha é o tipo de aposta que os cautelosos desaconselham.
Em apenas seis anos de operação, a casa — que se concentra em pizzas napolitanas de estética contemporânea e trabalha exclusivamente com pizzas individuais de fermentação natural de cerca de 48 horas — já havia garantido a 36ª posição no 50 Top Pizza World 2025. Em 2026, seu criador é reconhecido individualmente em escala mundial. O mercado financeiro perdeu um analista. A gastronomia mundial ganhou algo muito mais precioso.

Pedro Siqueira — A técnica napolitana com sotaque carioca, 78º no mundo
É a terceira vez consecutiva que Pedro Siqueira integra a seleção mundial. À frente do grupo Sìsì, ele comanda três operações no Rio de Janeiro: o Sìsì Cucina, no Leblon, o Sìsì Déli, em Botafogo, e o Sìsì Pizza, na Barra da Tijuca. Três endereços em três bairros que traduzem, cada um, uma faceta diferente do Rio — a elegância boêmia do Leblon, a vivacidade popular de Botafogo, a modernidade litorânea da Barra.
As pizzas são feitas com massa de fermentação espontânea de no mínimo 48 horas e molho de tomate artesanal. A proposta combina técnica napolitana e linguagem carioca — uma identidade só sua. Em 2026, Siqueira se prepara para expandir seus horizontes até São Paulo, onde abrirá o Marmotta Pasta Bar. O Rio conquista São Paulo — pela pizza.

André Guidon — A arte da leveza, 83º no mundo
André Guidon, da Leggera, em São Paulo, completa o quinteto brasileiro na 83ª posição. Seu nome já revela toda a sua filosofia: leggera, leve em italiano. Uma pizza cuja massa alveolada e fermentação controlada produzem uma leveza que contrasta com a densidade de tantas pizzas contemporâneas. Num mercado que costuma celebrar a fartura, Guidon fez da contenção uma assinatura.
O que Milão disse sobre o Brasil
O excelente resultado dos profissionais brasileiros reflete um mercado nacional maduro, no qual os clientes já não buscam apenas o tradicional prato de domingo, mas aspiram a uma experiência completa — técnica, narrativa e gastronômica.
A presença recorrente de brasileiros nos rankings internacionais reforça o amadurecimento do mercado nacional, marcado pelo investimento em fermentações longas, pela pesquisa de ingredientes, pela formação de equipes e pela valorização de estilos que vão muito além da pizza tradicional paulistana.
O que o Brasil compreendeu — e que Milão consagrou em 24 de junho de 2026 — é algo que os grandes mestres napolitanos sempre souberam: uma boa pizza não é uma receita. É uma convicção. E quando uma convicção é forte o suficiente, ela atravessa oceanos, se enraíza em novos solos, absorve novas águas e novo trigo, se reinterpreta sem se trair — e produz, num forno de São Paulo ou do Rio, algo capaz de calar até os céticos mais obstinados.
Fontes: O Tempo · Catraca Livre · Informa Rio · Agenda Carioca · The Best Pizza Awards / The Best Chef Awards · 50 Top Pizza World 2025-2026
