Olympikus: como uma marca brasileira transformou a corrida em um fenômeno nacional

Durante décadas, seus calçados acompanharam crianças nas aulas de educação física, adultos em suas caminhadas, famílias em seu cotidiano e, mais recentemente, uma nova geração de corredores que transformou as ruas das cidades brasileiras em verdadeiras pistas a céu aberto. Mas por trás dessa familiaridade quase afetiva existe uma história muito mais ambiciosa. A de uma marca nascida no Brasil em 1975 que, cinquenta anos depois, decidiu não apenas acompanhar o esporte brasileiro, mas desenvolver sua própria tecnologia, conquistar o território da alta performance e demonstrar que uma marca nacional poderia entrar em um universo durante muito tempo dominado por Nike, Adidas, Asics, Hoka e outros gigantes internacionais.

Para compreender a Olympikus, é preciso primeiro compreender algo sobre o Brasil: a relação que o país mantém com o movimento. O esporte está em toda parte, mas não necessariamente reservado aos estádios ou aos atletas profissionais. Ele está presente nas ruas, nos parques, nas praias, nas praças públicas e nas avenidas fechadas aos domingos. A corrida de rua, em particular, tornou-se, ao longo dos últimos anos, um fenômeno social que vai muito além da prática esportiva. Correr hoje significa pertencer a uma comunidade, cuidar de si, conhecer pessoas, superar desafios, viajar para participar de uma prova e, às vezes, simplesmente encontrar, em alguns quilômetros percorridos logo pela manhã, um espaço de liberdade em meio a uma vida urbana cada vez mais intensa.

A Olympikus compreendeu essa transformação antes de muitas outras marcas.

A marca foi criada em 1975 e, ao longo das décadas, construiu uma relação profunda com o esporte brasileiro. Segundo a própria história da empresa, seu primeiro modelo era um produto muito mais simples do que os calçados de competição que hoje associamos à Olympikus. Mas essa primeira etapa lançou as bases de uma filosofia que permanece no centro da marca: desenvolver produtos pensados para o consumidor brasileiro, em um país cujas dimensões, climas, hábitos e realidades econômicas exigem respostas próprias. Hoje, a Olympikus afirma desenvolver seus produtos no Brasil, dentro do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Vulcabras, apresentado pela empresa como o maior centro desse tipo na América Latina.

Essa dimensão industrial é essencial. Porque a história recente da Olympikus não é apenas a história de uma mudança de imagem. É a história de um investimento maciço em pesquisa, desenvolvimento e compreensão científica do movimento.

Por trás dos calçados que vemos nas vitrines existe um ecossistema formado por designers, engenheiros, especialistas em materiais, pesquisadores, profissionais de biomecânica e corredores. A Vulcabras, que controla a Olympikus, possui em Parobé, no Rio Grande do Sul, um centro de pesquisa e desenvolvimento que reúne mais de 700 profissionais e trabalha com as diferentes marcas do grupo. Segundo a Forbes Brasil, mais de 800 protótipos são desenvolvidos e testados nesse centro, com a utilização, entre outras tecnologias, de modelagem digital, impressão 3D, realidade virtual e inteligência artificial no processo de desenvolvimento.

Para uma marca estrangeira que observa o mercado brasileiro a partir de Paris, Londres ou Milão, essa realidade pode parecer menos evidente do que é para os consumidores locais. O Brasil é frequentemente percebido como um enorme mercado consumidor, um país capaz de adotar rapidamente as tendências internacionais. A história da Olympikus conta outra coisa: o Brasil também pode desenvolver suas próprias respostas tecnológicas e industriais.

Foi exatamente isso que aconteceu com a corrida.

Durante muito tempo, as grandes marcas internacionais ocuparam o território da performance. Elas possuíam os laboratórios, os atletas, as inovações visíveis e, sobretudo, a imagem de uma expertise técnica mundial. A Olympikus, por sua vez, possuía algo diferente: um conhecimento íntimo do consumidor brasileiro.

A virada acontece em 2019, com o lançamento da linha Corre. A marca entra então de maneira muito mais afirmativa no universo da corrida e da performance. O projeto não consiste simplesmente em produzir um tênis mais técnico. Trata-se de mudar a própria percepção da marca. Segundo a Exame, a linha Corre contribuiu para acelerar os investimentos da Vulcabras em tecnologia e no lançamento de novos produtos, enquanto a marca Olympikus dobrou de tamanho desde 2020.

A aposta era ousada: produzir no Brasil calçados capazes de responder às exigências de um público de corredores cada vez mais informado, mantendo, ao mesmo tempo, uma acessibilidade superior à de muitos modelos internacionais.

E então algo inesperado aconteceu.

Os corredores começaram a adotar a Olympikus.

O fenômeno tornou-se particularmente visível com o Corre 4. A marca afirma que o modelo foi o mais utilizado pelos corredores brasileiros no Strava em 2023, 2024 e 2025, um resultado que ilustra o espaço conquistado pela Olympikus na comunidade nacional de corrida.

Mas por trás desse sucesso existe uma transformação mais profunda do mercado brasileiro. Em 2024, um estudo publicado pela Olympikus e pela Box1824 estimava em 13 milhões o número de brasileiros que praticavam corrida de rua. O dado permite compreender por que a corrida se tornou para a marca muito mais do que uma categoria de produtos: ela se transformou em um território cultural.

A marca, portanto, não se limitou a vender tênis para corredores. Ela começou a construir um universo em torno do “corre”, palavra portuguesa difícil de traduzir perfeitamente, que evoca ao mesmo tempo a corrida, o movimento, o esforço cotidiano e essa maneira tão brasileira de falar da vida como um percurso que precisamos continuar avançando, apesar de tudo.

É provavelmente aí que está uma das chaves do sucesso da Olympikus.

A marca não tentou se tornar uma versão brasileira de uma marca estrangeira. Ela começou a falar sobre corrida a partir da experiência brasileira.

Em um país continental, correr em Porto Alegre não é a mesma coisa que correr em Salvador, Brasília, São Paulo, Recife ou Goiânia. As temperaturas mudam, as superfícies mudam, os hábitos mudam, os corpos mudam e as expectativas mudam. Uma marca que conhece intimamente esse mercado pode, portanto, desenvolver uma proximidade que a força de um grupo internacional não necessariamente garante.

Essa proximidade transformou-se em comunidade.

A Olympikus passou progressivamente a ampliar suas parcerias com corridas, treinadores, atletas e criadores de conteúdo. A marca organiza e apoia eventos, desenvolve produtos com especialistas e constrói uma comunicação que já não fala apenas de tênis, mas de pessoas em movimento. Hoje, apresenta a corrida como uma transformação individual e coletiva e afirma estar presente nas principais provas do país.

Então chegou outro momento decisivo: aquele em que a marca decidiu mirar o topo.

Durante muito tempo, os tênis mais sofisticados da corrida foram associados a uma categoria que se tornou quase mítica: os “super shoes”. Eles geralmente combinam espumas de alto desempenho e placas rígidas, muitas vezes de fibra de carbono, para aumentar o retorno de energia e a eficiência da passada.

Entrar nesse território significa aceitar uma comparação direta com os maiores nomes da indústria.

Em fevereiro de 2026, a Olympikus apresentou o Corre Pace, seu primeiro modelo posicionado nessa categoria. Produzido em edição limitada de 1.500 exemplares e vendido pelo preço anunciado de R$ 1.999,99, o modelo pesa apenas 140 gramas no tamanho 40 e combina uma espuma supercrítica expandida com nitrogênio, uma placa de carbono e uma geometria Rocker destinada a favorecer a transição da passada.

O Corre Pace representa, assim, algo mais importante do que um novo lançamento.

Ele marca o momento em que a Olympikus deixa definitivamente de ser percebida apenas como uma marca de calçados esportivos acessíveis para entrar na conversa mundial sobre tecnologia de alta performance.

A tecnologia desenvolvida para esse modelo é particularmente reveladora dessa ambição. A Olympikus apresenta uma placa de propulsão Carbon-G composta por três camadas de fibra de carbono, além de uma entressola NT-X Elite que utiliza uma espuma de PEBA expandida com nitrogênio. O processo de fabricação também inclui usinagem CNC de precisão, permitindo trabalhar as peças individualmente sem compressão. A marca reivindica, assim, uma combinação de leveza, retorno de energia, estabilidade e propulsão.

Mas o verdadeiro desafio não é apenas tecnológico.

Ele é simbólico.

Quando uma marca brasileira vende um modelo por quase R$ 2.000 para disputar o segmento dos calçados mais técnicos do mercado, ela conta algo sobre a evolução da indústria esportiva brasileira. Ela mostra que a pesquisa pode ser desenvolvida localmente. Que a inovação não precisa necessariamente ser importada. E, sobretudo, que um consumidor brasileiro pode se tornar não apenas usuário, mas também referência no desenvolvimento do produto.

Essa é uma mudança considerável em relação à imagem tradicional do mercado brasileiro como simples receptor das inovações vindas do exterior.

A estratégia econômica da Vulcabras também permite compreender essa evolução. O grupo concentrou sua atividade no esporte, tendo a Olympikus como marca brasileira e as operações brasileiras da Mizuno e da Under Armour. Segundo a Exame, essa especialização, associada à verticalização e aos investimentos em inovação, acompanhou um período de crescimento significativo. Em 2025, a Vulcabras registrou receita líquida de R$ 3,57 bilhões, uma alta de 16,8% em relação ao ano anterior, enquanto seu lucro recorrente anual alcançou R$ 572,9 milhões.

Esses números, por si só, não contam toda a história do sucesso da Olympikus, uma vez que a Vulcabras possui diferentes atividades e marcas. Mas eles permitem colocar a transformação da marca dentro de um movimento industrial muito mais amplo: o de uma empresa que escolheu fazer da tecnologia esportiva, da produção e da inovação o centro de seu modelo.

E essa estratégia começa a ultrapassar as fronteiras brasileiras.

Hoje, a Olympikus está presente em toda a América do Sul, enquanto a Vulcabras informa que a marca possui mais de 12 mil pontos de venda no Brasil. A empresa também começou a olhar com mais atenção para os mercados internacionais. Em 2025, Pedro Bartelle, CEO da Vulcabras, mencionava especialmente os movimentos da empresa em direção à Europa e a possibilidade de ampliar sua presença internacional.

Para uma marca construída em torno da ideia de “feito por brasileiros para brasileiros”, essa próxima etapa é particularmente interessante.

Porque como se exporta uma identidade esportiva brasileira?

A questão é diferente daquela que consiste simplesmente em exportar um par de tênis.

Um produto pode atravessar uma fronteira com relativa facilidade. Uma identidade, muito menos.

A Olympikus possui hoje uma história que pode justamente se transformar em uma vantagem internacional: a de uma marca que não começou querendo conquistar o mundo. Ela começou compreendendo o próprio país.

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