O Brasil é eleito Destino do Ano — e isso é apenas o começo

Durante muito tempo, o Brasil permaneceu prisioneiro dos próprios estereótipos. Rio de Janeiro, Carnaval, samba, futebol, Amazônia. Símbolos reais, poderosos e incontestáveis, mas que contavam apenas uma parte da história de um país continental, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados e mais de 200 milhões de habitantes.

Em 2026, algo mudou. A revista norte-americana Travel + Leisure, uma das publicações de turismo mais influentes do mundo, elegeu o Brasil como Destino do Ano. Poucos meses antes, o The New York Times incluiu Inhotim, em Minas Gerais, em sua lista dos destinos imperdíveis do planeta. Duas instituições distintas, duas escolhas editoriais independentes e uma mesma conclusão: o mundo começou a olhar para o Brasil de uma maneira diferente.

Inhotim, ou a arte de desafiar qualquer definição

É preciso caminhar por Inhotim para compreender por que o The New York Times decidiu destacá-lo. Localizado a cerca de uma hora de Belo Horizonte, no município de Brumadinho, o complexo desafia qualquer classificação simples. É um museu de arte contemporânea? Um jardim botânico? Um parque de esculturas? Inhotim é tudo isso ao mesmo tempo — e, provavelmente, muito mais.

Fundado pelo colecionador Bernardo Paz no início dos anos 2000, o espaço ocupa uma área superior a 5 mil hectares. Obras monumentais de artistas como Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Tunga e Adriana Varejão convivem em perfeita harmonia com exuberantes jardins tropicais e pavilhões projetados especialmente para abrigar instalações permanentes.

Ali, a arte não é contemplada à distância, atrás de uma vitrine.

Ela é percorrida.

Vivida.

Experimentada.

Em um mundo saturado por museus tradicionais e exposições temporárias que muitas vezes se parecem entre si, Inhotim oferece algo raro: uma experiência absolutamente singular. Foi justamente essa originalidade que o The New York Times reconheceu — e que milhões de visitantes brasileiros e estrangeiros confirmam todos os anos.

Travel + Leisure e a nova geografia do desejo

O reconhecimento concedido pela Travel + Leisure não premia apenas belas paisagens. Ele reflete uma profunda transformação nas expectativas dos viajantes internacionais.

O turismo mundial vive uma verdadeira crise de identidade. Destinos tradicionais da Europa, como Paris, Roma, Barcelona e Amsterdã, enfrentam os efeitos do turismo excessivo, que muitas vezes compromete justamente a experiência que prometem oferecer.

Os viajantes mais exigentes passaram a procurar algo diferente.

Buscam autenticidade.

Culturas vivas.

Experiências que não possam ser reproduzidas em dezenas de outros destinos.

E o Brasil responde a esse desejo com uma diversidade impressionante.

O Pantanal, a maior área úmida tropical do planeta, abriga onças-pintadas, ariranhas e jacarés em um dos ecossistemas mais extraordinários da Terra.

Os Lençóis Maranhenses parecem desafiar a lógica da natureza, com suas dunas brancas pontuadas por lagoas de águas cristalinas em tons de azul e verde.

A Chapada dos Veadeiros, no coração do Cerrado goiano e reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, revela paisagens de rara beleza moldadas por formações de cristal com bilhões de anos.

Já o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, tornou-se referência na produção de vinhos brasileiros que começam a conquistar espaço nas melhores adegas da Europa.

Foi esse Brasil múltiplo, surpreendente e ainda pouco conhecido internacionalmente que a Travel + Leisure decidiu celebrar.

O Cerrado: um tesouro ainda pouco conhecido

Entre as grandes revelações desse novo olhar internacional, o Cerrado ocupa um lugar especial.

Durante décadas, o bioma permaneceu à sombra da Amazônia no imaginário ecológico mundial. Hoje, entretanto, a comunidade científica o reconhece como uma das savanas mais ricas em biodiversidade do planeta — e também uma das mais ameaçadas.

Mas o Cerrado representa muito mais do que sua extraordinária riqueza natural.

Ele é também cultura.

É gastronomia.

É identidade.

É modo de vida.

Ingredientes como pequi, baru, jabuticaba e cajuzinho-do-cerrado inspiram uma nova geração de chefs que transformam sabores tradicionais em alta gastronomia contemporânea. Entre eles está Ian Baiocchi, em Goiânia, cujo trabalho tem contribuído para colocar os ingredientes do Cerrado no mapa da gastronomia brasileira de excelência.

Cidades como Pirenópolis, localizada a poucas horas de Brasília, preservam um patrimônio colonial cuidadosamente conservado, além de uma vida cultural vibrante que ainda permanece praticamente desconhecida para muitos visitantes internacionais.

Um olhar pessoal

Nasci em Goiânia, no coração do Cerrado.

Vivi na Bélgica, em Portugal e na França.

Durante muitos anos, observei a imagem do Brasil através do olhar dos outros — um olhar admirado, mas frequentemente limitado aos mesmos estereótipos: praias, Carnaval e exuberância.

O que a Travel + Leisure e o The New York Times reconheceram em 2026 é justamente o Brasil que sempre conheci.

O Brasil dos territórios do interior.

Dos produtores apaixonados pelo que fazem.

Dos artistas que reinventam a cultura brasileira.

Das cozinhas regionais que preservam tradições centenárias.

Das cidades que poucos estrangeiros ainda descobriram.

Foi para contar essa outra história que nasceu o Brasil à Table.

Nosso objetivo é apresentar ao público francófono um Brasil sofisticado, criativo, diverso e profundamente autêntico — um país que vai muito além das imagens que durante décadas dominaram o imaginário internacional.

Hoje, finalmente, o mundo começa a olhar para a direção certa.

Já era tempo.

Obrigado pela sua leitura.

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