JBS: do açougue no Brasil ao império mundial da carne
Como um pequeno açougue do interior de Goiás se tornou o maior grupo do agronegócio do planeta, alimentando diariamente centenas de milhões de pessoas

Origens modestas em Anápolis
Tudo começa em 1953, na cidade de Anápolis, no coração do estado de Goiás. José Batista Sobrinho, apelidado de “Zé Mineiro”, abre a Casa de Carnes Mineira, um simples açougue de bairro. Quatro anos depois, a construção de Brasília, a nova capital federal, oferece à empresa nascente uma oportunidade inesperada: fornecer carne para as dezenas de milhares de operários do canteiro de obras. Em 1970, a aquisição de uma unidade em Formosa e a criação da marca Friboi marcam o verdadeiro ponto de partida da industrialização do grupo.
As décadas seguintes veem a empresa subir os degraus, um a um. Em 1996, a abertura de uma unidade em Goiânia abre caminho para as primeiras exportações. O ponto de virada decisivo ocorre no início dos anos 2000, quando a terceira geração da família Batista — os irmãos Joesley e Wesley — assume o comando e lança uma estratégia agressiva de aquisições internacionais, transformando em poucos anos uma empresa brasileira em uma multinacional.

A conquista do mundo
O grupo, hoje simplesmente chamado de JBS, reivindica presença comercial em mais de 180 países e conta com cerca de 280 mil colaboradores distribuídos em mais de 250 unidades industriais em cerca de vinte países. Trata-se do maior processador mundial de proteína animal: número um global em carne bovina, frango e pratos preparados, número dois em suínos, e líder sul-americano na produção de ovos desde a aquisição da Mantiqueira Brasil em 2025.
Além da carne, o conglomerado se diversificou em couro, biodiesel, fertilizantes, colágeno, tripas para embutidos, higiene e beleza, embalagens metálicas, transporte e gestão de resíduos — uma integração vertical que há muito tempo é sua força diante da volatilidade dos mercados agrícolas.
No campo financeiro, a empresa registrou em 2025 uma receita líquida recorde de aproximadamente US$ 86,2 bilhões, com lucro de US$ 2 bilhões e retorno sobre patrimônio líquido (ROE) de 25%. Esse desempenho veio acompanhado de um fluxo de caixa livre substancial, alimentando tanto recompras de ações quanto uma política generosa de dividendos aos acionistas.
O marco simbólico dessa internacionalização segue sendo a listagem na Bolsa de Nova York, em 2023, que fez da JBS uma das poucas empresas brasileiras a contar com dupla listagem, entre a NYSE e a B3, em São Paulo. O grupo trabalha agora para transferir mais volume de negociação para Nova York, na expectativa de integrar os grandes índices bursáteis americanos acompanhados pelos fundos passivos — uma manobra financeira destinada a fazer com que os algoritmos de Wall Street reconheçam o real peso do número um mundial da alimentação.
Uma mudança de geração também está no horizonte: em janeiro de 2027, Wesley Batista Filho, de 34 anos, deve suceder Gilberto Tomazoni no comando do grupo, trazendo de volta um membro da família fundadora ao topo da empresa mais de oito anos após sua saída.
Alimentar o mundo: a missão no centro do modelo JBS
Além dos números e das aquisições, é uma missão que estrutura a identidade da JBS: contribuir para alimentar uma população mundial em constante crescimento. Com presença comercial em mais de 180 países, a empresa se consolidou como um elo essencial das cadeias de abastecimento alimentar nos cinco continentes, levando diariamente proteína animal a mercados tão diversos quanto Ásia, Oriente Médio, Europa e América do Norte.
Essa envergadura logística confere à JBS um papel estratégico na segurança alimentar mundial. Ao diversificar seus sites de produção em vários continentes e integrar toda a sua cadeia de valor — da pecuária à distribuição, passando pelo processamento —, o grupo consegue absorver choques climáticos, sanitários ou geopolíticos que afetam regularmente a oferta alimentar global, garantindo assim um abastecimento mais estável para centenas de milhões de consumidores.
O impacto econômico dessa atividade é considerável. Com cerca de 280 mil colaboradores diretos distribuídos em cerca de vinte países, a JBS figura entre os maiores empregadores privados do setor agroalimentar do mundo, gerando empregos, renda e efeitos multiplicadores para milhares de produtores rurais, especialmente no Brasil, onde a empresa continua sendo um dos principais motores das exportações de carne. Em 2025, o setor bovino brasileiro exportou mais de 1,7 milhão de toneladas de carne apenas no primeiro semestre, um dinamismo no qual a JBS desempenha papel de destaque.
O grupo também investe em inovação para atender às novas demandas alimentares globais: diversificação para proteínas vegetais, desenvolvimento de linhas de pratos preparados adaptadas a diferentes mercados, e modernização contínua de seus padrões de bem-estar animal e segurança sanitária, em um setor onde a confiança do consumidor segue sendo o recurso mais valioso.

Um legado voltado para o futuro
É essa trajetória de crescimento contínuo que molda o legado mundial da JBS. Em sete décadas, uma empresa familiar nascida no interior do Brasil se tornou o maior processador de proteína animal do planeta, símbolo da força agroexportadora brasileira e pilar da segurança alimentar mundial. Essa trajetória é hoje citada com frequência como exemplo por observadores econômicos, que veem nela a demonstração de que um grupo familiar pode alcançar o posto das maiores empresas do mundo sem abrir mão de suas raízes.
A JBS representa, acima de tudo, a capacidade do Brasil de produzir campeões industriais de porte mundial, geradores de empregos, divisas e valor para milhares de produtores rurais. Sua expansão contínua — novas unidades, novos mercados, novos produtos — traduz uma ambição constante: colocar, a cada dia, mais alimento, de qualidade e acessível, nas mesas do mundo inteiro.
Enquanto o grupo se prepara para passar o bastão a uma nova geração de líderes e consolidar sua presença nos mercados financeiros de Nova York, uma coisa permanece certa: do pequeno açougue de Anápolis aos quatro cantos do globo, a JBS continua escrevendo uma das mais belas histórias industriais da economia brasileira.
Fontes: relatórios financeiros do grupo, Forbes Brasil, Economic News Brasil, CNN Brasil, FM2S, JBS Global — informações verificadas em agosto de 2026.
Brasil à Mesa — seção Economia & Sociedade
