Galp no Brasil: por que o petróleo brasileiro se tornou uma das grandes apostas da Europa

Há números que contam uma história melhor do que longos discursos. Hoje, 100% do petróleo produzido pela Galp vem do Brasil. Em vinte e cinco anos de presença no país, o grupo português investiu cerca de US$ 8 bilhões e afirma que o Brasil já representa 70% de sua geração de caixa. Para os próximos anos, a companhia prevê ainda US$ 1,5 bilhão em investimentos em suas atividades brasileiras até 2030. O que antes era apenas uma presença estratégica entre outras operações tornou-se, assim, o coração da atividade petrolífera da Galp.

Por trás dessa transformação está uma história intimamente ligada à do pré-sal brasileiro. A Galp está presente no Brasil desde 2000 e fez parte das empresas internacionais que acompanharam, desde os primeiros momentos, o desenvolvimento dos gigantescos recursos descobertos no litoral do país. Hoje, a companhia participa de treze unidades flutuantes de produção em operação no Brasil e está entre os principais produtores de petróleo e gás do país. Sua atividade está concentrada nos grandes ativos do pré-sal da Bacia de Santos, onde a profundidade das águas, a complexidade dos reservatórios e a dimensão dos projetos obrigaram as empresas a desenvolver algumas das tecnologias offshore mais avançadas da indústria.

Para Paula Pereira da Silva, Country Manager da Galp no Brasil, essa trajetória está longe de terminar. Durante conversas com a imprensa por ocasião da ROG.e 2026, a executiva explicou que a companhia havia alcançado recentemente um pico de produção de 160 mil barris por dia e que toda a produção atual da Galp vinha do Brasil. Ela descreve o país como o “filé-mignon” dos projetos petrolíferos da empresa, uma expressão que resume o espaço que o mercado brasileiro passou a ocupar em sua estratégia global.

Mas por que o Brasil?

A resposta está, antes de tudo, sob o oceano.

O pré-sal brasileiro tornou-se um dos grandes polos mundiais de produção de hidrocarbonetos graças às reservas expressivas, à alta produtividade de alguns campos e aos avanços tecnológicos que permitiram explorar reservatórios localizados sob milhares de metros de água e de complexas camadas geológicas. A Agência Internacional de Energia destaca que a expansão da exploração e da produção nas bacias do pré-sal contribuiu fortemente para o crescimento das reservas de petróleo do Brasil e para sua consolidação como um grande produtor mundial.

Para a Galp, um dos símbolos mais importantes dessa história agora tem um nome: Tupi.

Descoberto em 2006, na Bacia de Santos, Tupi foi o primeiro grande campo do pré-sal brasileiro a entrar em produção. Vinte anos depois de sua descoberta, o campo acaba de alcançar um número que dá a dimensão de sua importância: 4 bilhões de barris de óleo equivalente produzidos. A Galp, que participa do projeto desde o início por meio da Petrogal Brasil, considera Tupi seu principal ativo no país. Em janeiro de 2026, Tupi e Iracema chegaram novamente, juntos, a um nível de produção de aproximadamente 1 milhão de barris por dia, impulsionado, entre outros fatores, pela interligação de novos poços.

Mas o próximo capítulo do crescimento da Galp tem outro nome: Bacalhau.

Localizado no pré-sal da Bacia de Santos, Bacalhau começou a produzir em outubro de 2025. Sua unidade flutuante, o FPSO Bacalhau, tem capacidade para produzir até 220 mil barris de petróleo por dia. As reservas recuperáveis da primeira fase são estimadas em mais de 1 bilhão de barris de óleo equivalente, e a participação da Petrogal Brasil, controlada pela Galp e pela Sinopec, é de 20%. Quando atingir seu platô de produção, o projeto deverá acrescentar cerca de 40 mil barris por dia à produção da Galp, um aumento superior a 30% em relação ao seu portfólio anterior.

Bacalhau também revela outra característica do petróleo brasileiro: seu caráter profundamente internacional.

A operadora é a norueguesa Equinor, que detém 40% do projeto. A ExxonMobil também possui 40%, enquanto a Petrogal Brasil detém 20%. O projeto reúne, portanto, em torno de um mesmo reservatório brasileiro, capitais, tecnologias e empresas de diferentes continentes. Seu FPSO utiliza, entre outras soluções, um sistema de turbinas a gás de ciclo combinado que permite reduzir significativamente a intensidade das emissões de CO₂ por barril produzido. Segundo a Galp, esse índice deverá ficar em torno de 9 kg de CO₂ por barril, aproximadamente metade da média mundial da indústria.

O pré-sal, portanto, não é apenas uma história de volumes. É também uma história de engenharia.

Produzir petróleo a mais de 2 mil metros de profundidade, em reservatórios complexos e submetidos a pressões extremamente elevadas, exige uma combinação de tecnologias, capital e conhecimento especializado que existe apenas em um número limitado de regiões do mundo. É justamente essa capacidade industrial que contribui para tornar o Brasil tão atraente para os grandes grupos internacionais.

E a Galp já não olha apenas para os campos que estão em produção.

A estratégia atual está baseada em três movimentos: aumentar a produção a partir dos ativos existentes, prolongar sua vida útil e buscar novos recursos. É nessa terceira dimensão que voltam ao centro das atenções duas regiões que poderão desempenhar um papel importante na próxima década: a Bacia de Pelotas, no sul do país, e a Margem Equatorial, no norte.

Em junho de 2025, Galp e Petrobras obtiveram três novos blocos exploratórios offshore na Bacia de Pelotas, durante o quinto ciclo da Oferta Permanente de Concessão da ANP. A área representa mais de 3 mil km². A Petrobras é a operadora, com 70%, e a Galp detém 30%. Para a companhia portuguesa, essa aquisição representou uma nova demonstração de confiança no potencial de longo prazo do Brasil.

A Margem Equatorial é ainda mais sensível.

Essa imensa região offshore localizada no Norte e no Nordeste do Brasil concentra, há vários anos, uma parte importante das discussões sobre o futuro da exploração de petróleo no país. Ela inclui, entre outras, as bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Barreirinhas. Em junho de 2026, a ANP aprovou a indicação de 86 blocos exploratórios da Margem Equatorial para futuros ciclos da Oferta Permanente de Concessão, sendo 25 na Bacia de Barreirinhas. Esses blocos, entretanto, continuam sujeitos às etapas ambientais e regulatórias previstas pelo processo brasileiro.

A Galp possui justamente quatro blocos na Bacia de Barreirinhas, adquiridos em um consórcio com Shell e Petrobras. O projeto abrange aproximadamente 2.499 km² e ainda se encontra em fase de licenciamento ambiental. A companhia aguarda, portanto, as autorizações necessárias antes de avançar na exploração.

É aqui que a história da Galp no Brasil se torna mais complexa.

O potencial geológico é considerável, mas o acesso às novas fronteiras também depende do marco regulatório, dos estudos ambientais e do ritmo das autorizações. Para as companhias internacionais, o desafio consiste em equilibrar o objetivo de ampliar suas reservas com a necessidade de respeitar os procedimentos ambientais e as exigências do Estado brasileiro.

Paula Pereira da Silva destacou, inclusive, que novas regras para áreas consideradas menos atrativas poderiam contribuir para ampliar as oportunidades de investimento. Por sua vez, a Galp continua afirmando que o Brasil apresenta vantagens importantes, especialmente pela qualidade de seus recursos, pela existência de um regulador consolidado e pela experiência de seus parceiros locais e internacionais.

O paradoxo é interessante.

Ao mesmo tempo em que o mundo da energia busca reduzir gradualmente sua dependência dos hidrocarbonetos, as grandes companhias continuam investindo em regiões onde a produção pode ser competitiva, abundante e realizada com uma intensidade de carbono relativamente baixa. O pré-sal brasileiro está precisamente no centro dessa equação.

O Brasil se torna, assim, uma espécie de laboratório mundial: como continuar produzindo a energia de que a economia global ainda necessita e, ao mesmo tempo, reduzir a intensidade ambiental dessa produção?

Bacalhau já oferece parte da resposta. Seu projeto combina uma capacidade muito elevada de produção com tecnologias destinadas a reduzir o consumo energético da instalação e as emissões associadas a cada barril. O projeto é apresentado por seus parceiros como uma nova geração de desenvolvimento offshore.

Mas existe outra dimensão, ainda mais estratégica.

Para a Galp, o Brasil não é simplesmente um país produtor. Tornou-se um pilar de seu portfólio global.

Os resultados financeiros da companhia dão uma indicação clara disso. Em 2025, a Galp registrou lucro líquido ajustado recorde de € 1,15 bilhão, enquanto o aumento da produção de petróleo e gás no Brasil contribuiu de maneira decisiva para esse desempenho. Mais da metade do EBITDA da companhia veio do Brasil, segundo os resultados divulgados pela Galp.

No primeiro trimestre de 2026, o movimento continuou: o lucro líquido ajustado chegou a € 272 milhões, alta de 41% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto a produção de petróleo e gás no Brasil cresceu 23%. O EBITDA do segmento Upstream aumentou 78%. A companhia investiu, entre outros projetos, € 201 milhões durante o trimestre em projetos de Upstream no Brasil e em seus projetos de biocombustíveis avançados e hidrogênio verde em Portugal.

O número anunciado no outono de 2026 é ainda mais revelador: a Galp prevê uma produção média de aproximadamente 130 mil barris de óleo equivalente por dia no Brasil em 2026 e cerca de US$ 1,5 bilhão em investimentos em seus projetos de exploração e produção em andamento até 2030.

Em outras palavras, o grupo português não considera o Brasil um capítulo encerrado de sua história.

Considera-o parte de seu futuro.

E isso também explica por que as novas fronteiras brasileiras são acompanhadas com tanta atenção.

A questão já não é apenas saber quanto petróleo o Brasil pode produzir hoje. É saber como o país poderá manter e renovar sua capacidade de produção nas próximas décadas.

É um desafio estratégico para empresas como a Galp, mas também para o próprio Brasil.

Os gigantescos campos do pré-sal têm longa vida útil, mas toda indústria petrolífera precisa, em algum momento, substituir os volumes produzidos por novos recursos. É por isso que as bacias de Pelotas e da Margem Equatorial despertam tanta atenção. Elas representam potencialmente as próximas etapas da exploração brasileira, ainda que seu desenvolvimento dependa dos resultados geológicos, das condições econômicas e do marco ambiental.

No caso da Galp, a estratégia é, portanto, clara: continuar maximizando os ativos que já demonstraram seu valor enquanto prepara a próxima geração de projetos.

Tupi representa a maturidade.

Bacalhau representa o crescimento.

Pelotas e a Margem Equatorial representam a possibilidade do amanhã.

E por trás dessas três dimensões existe uma mesma ideia: o Brasil tornou-se indispensável para a estratégia petrolífera da companhia portuguesa.

Vinte e cinco anos atrás, a Galp chegava a um Brasil que começava a compreender a dimensão de seu potencial offshore. Hoje, a situação é quase inversa: é uma empresa europeia que depende amplamente da produção brasileira para alimentar seu próprio modelo de crescimento.

O símbolo é poderoso.

No imaginário internacional, o Brasil é frequentemente apresentado como o país da Amazônia, da agricultura, das energias renováveis e de seu enorme potencial solar e eólico. Mas, sob o oceano, uma outra potência energética foi construída.

Uma potência capaz de produzir milhões de barris, atrair os maiores grupos de energia do planeta e desenvolver tecnologias para explorar reservatórios localizados em condições extremas.

E essa história está longe de terminar.

A Galp é hoje uma das testemunhas mais interessantes desse processo. Uma companhia portuguesa que chegou ao Brasil há mais de um quarto de século, investiu bilhões de dólares, participou do desenvolvimento do pré-sal e afirma agora que toda a sua produção de petróleo vem do país.

Seu próximo desafio será fazer essa história durar.

Produzir mais com Tupi.

Ganhar escala com Bacalhau.

Explorar Pelotas.

Aguardar as condições que permitam avançar na Margem Equatorial.

E continuar investindo em um país cujo subsolo offshore se tornou um dos ativos mais cobiçados do Atlântico Sul.

O petróleo brasileiro, portanto, já não é apenas uma história brasileira.

Para a Galp, tornou-se uma história europeia.

E, na escala da energia mundial, pode muito bem ser uma das histórias mais importantes da próxima década.

Obrigado pela sua leitura.

Receba gratuitamente nossa newsletter com conteúdo original sobre o Brasil contemporâneo.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *