Quando o Cerrado brasileiro se torna a capital mundial da inteligência artificial
5ª cidade da América Latina em iniciativas de IA, 273 startups ativas, 500 milhões de reais em investimentos privados e o maior centro de pesquisa em inteligência artificial da América Latina: Goiânia não é mais apenas a capital do Cerrado. Ela está se tornando uma das capitais mundiais da tecnologia do amanhã.

Há revoluções que não fazem barulho. Elas se constroem silenciosamente — em laboratórios universitários, em escritórios de coworking públicos, em salas de reunião onde engenheiros, pesquisadores e empreendedores decidem, numa manhã comum, mudar as regras do jogo.
Em Goiânia, essa revolução está em marcha desde 2019. E em 2026, o mundo começa a perceber.
5ª cidade da América Latina em inteligência artificial
Goiânia conquistou a quinta posição entre as cidades da América Latina com maior liderança em iniciativas de inteligência artificial, segundo levantamento da AITOUR Intelligence, que avaliou indicadores como ecossistema de inovação, investimentos, startups, centros de pesquisa, governo digital e inovação corporativa.
Esse resultado coloca a capital goiana atrás apenas de São Paulo, Cidade do México, Santiago do Chile e Buenos Aires — e à frente de metrópoles como Bogotá, Lima e Montevidéu.
Para quem ainda associa Goiânia ao boi, à soja e ao sertanejo universitário, esse ranking é uma revelação. Mas para quem acompanhou de perto a evolução dessa cidade de dois milhões de habitantes no coração do Cerrado, o resultado é a confirmação de um trabalho de longo prazo — metódico, ambicioso e extraordinariamente bem executado.

O CEIA-UFG: o maior centro de pesquisa em IA da América Latina
No centro dessa transformação está uma instituição da qual a Europa ainda pouco ouviu falar, mas que está se impondo como referência mundial em seu campo.
Criado em 2019 no âmbito da política de Centros de Excelência do Governo de Goiás, o CEIA-UFG — Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás — tornou-se uma referência nacional em inteligência artificial aplicada, reunindo universidade, governo e setor produtivo em projetos de pesquisa, inovação e transferência de tecnologia.
O CEIA-UFG conta hoje com mais de 1.200 pesquisadores e lidera mais de 170 projetos em parceria com instituições e empresas nacionais e internacionais, desenvolvendo soluções orientadas especialmente à eficiência da gestão pública e ao fortalecimento do setor tecnológico.
Ao longo dos anos, o centro já atraiu cerca de R$ 500 milhões em investimentos privados para Goiás e consolidou o Estado como um dos principais polos brasileiros de desenvolvimento tecnológico.
E isso é apenas o começo. Em junho de 2026, o governador Daniel Vilela anunciou R$ 78 milhões em novos investimentos no CEIA-UFG para o período de 2026 a 2031. A parceria viabiliza investimentos em infraestrutura computacional, fomento a startups e novos negócios, pesquisa aplicada, formação de talentos, inovação tecnológica e desenvolvimento de soluções em inteligência artificial voltadas a áreas estratégicas como veículos autônomos, saúde, agronegócio, educação e ciências da vida.
Desse total, R$ 40 milhões serão destinados à implantação de um AI Data Center — estrutura voltada ao processamento de grandes volumes de dados e treinamento de modelos de inteligência artificial — além da criação de um laboratório dedicado ao desenvolvimento de veículos autônomos.
273 startups, 69 setores, uma revolução em marcha
O CEIA-UFG não é uma ilha. Ele é o coração de um ecossistema em plena expansão.
A segunda edição do Mapeamento do Ecossistema Goiano de Inovação mostra um aumento de 29% no número de startups em Goiás em 2025. O levantamento feito pelo Hub Goiás, iniciativa do Governo do Estado, identificou 273 startups ativas em 2025, contra 212 no ano anterior, com crescimento em áreas como inteligência artificial, agronegócio, saúde digital, logística e novas tecnologias, consolidando o Estado como polo emergente de inovação aplicada no Brasil. Essas startups estão presentes em 24 municípios, atuando em 69 segmentos distintos, com destaque para AgroTech, SoftTech, HealthTech, Biotech, EdTech e ConstruTech.
Em dois anos de existência, o Hub Goiás já apoiou mais de 170 startups por meio de nove editais de programas de incentivo, com um investimento de mais de R$ 30 milhões do Tesouro Estadual. O programa Epicentro da Inteligência Artificial, em parceria com o Centro de Competência em Tecnologias Imersivas (AKCIT), seleciona 150 startups de todo o Brasil, que passam por quatro fases: pré-incubação, incubação online, incubação presencial em Goiânia e demoday com investidores estratégicos.
O exemplo mais recente desse movimento veio com o Prêmio Sebrae Startups 2026. Após reunir mais de 2.600 empresas de todo o país, a competição colocou quatro startups goianas entre as 100 mais promissoras do Brasil: Almob Sistemas, BioTiers Pesquisa e Treinamento, ITA Mob e Moovz. Duas delas — Almob e ITA Mob — avançaram ainda mais e chegaram à seletiva das Top 30, resultado que evidencia o amadurecimento do ecossistema goiano.

A arma secreta de Goiás: a AgroTech
O que torna o ecossistema tecnológico goiano verdadeiramente único no panorama mundial da inovação é uma combinação que nenhuma outra região do mundo consegue reproduzir nessa escala: uma potência agrícola de primeiro plano aliada a uma ambição tecnológica de alto nível.
O Cerrado brasileiro é hoje uma das maiores regiões de produção agrícola do mundo. A soja, o milho, o algodão, o boi, o café — Goiás está no centro de uma máquina agroindustrial que alimenta centenas de milhões de pessoas em todos os continentes. Essa realidade econômica cria uma demanda natural e estrutural por tecnologias agrícolas — e posiciona Goiás como o laboratório mundial ideal para soluções de AgroTech.
O sistema FAEG/SENAR atua conectando o conhecimento teórico às demandas reais do mercado por meio do Campo Lab, o hub de inovação do sistema que completa dez anos em 2026, fomentando o surgimento de startups que resolvem gargalos de produtividade e garantindo que o jovem permaneça no campo com uma visão empreendedora e tecnológica.
Drones que mapeiam plantações ao centímetro. Sistemas de inteligência artificial que preveem rendimentos de colheitas com três meses de antecedência. Plataformas de gestão que conectam produtores rurais a mercados internacionais em tempo real. Biotecnologias que melhoram sementes e reduzem o uso de agrotóxicos. Tudo isso se desenvolve hoje em Goiás — e representa um mercado global estimado em centenas de bilhões de dólares nas próximas décadas.
O que torna Goiás diferente de todos os outros Vales do Silício
O termo Vale do Silício é desgastado. Dezenas de cidades no mundo se autoproclamaram “Vale do Silício de alguma coisa” — com resultados variados. Goiás não pretende ser uma cópia de Palo Alto transposta para o Cerrado.
O que Goiás está construindo é algo diferente — e talvez mais duradouro. Um Vale do Silício tropical, enraizado nas realidades concretas de uma economia agrícola de ponta, alimentado por uma universidade pública de excelência, sustentado por uma política pública coerente e de longo prazo, e enriquecido pela biodiversidade única de um bioma que o mundo está apenas começando a compreender.
O Pacto Goiás pela Inovação já reúne mais de 90 instituições. Mais de 50% das startups operam no modelo B2B e 41,8% utilizam receita por assinatura — indicadores que apontam para um ecossistema maduro, orientado para soluções reais e mercados sustentáveis.

O que isso significa para a Europa e o mundo francófono
Para as empresas europeias — francesas, belgas, suíças — que buscam parceiros tecnológicos nos mercados emergentes, Goiás representa uma oportunidade ainda amplamente inexplorada.
O acordo comercial UE-Mercosul, que entrou em vigor em maio de 2026, abre corredores de investimento e parceria entre a Europa e o Brasil que esse país não conhecia há décadas. E nesse contexto, as empresas tecnológicas de Goiás — com sua expertise única em AgroTech, HealthTech e inteligência artificial aplicada — são parceiros potenciais de valor considerável para setores como o agroalimentar, a saúde e a mobilidade urbana.
A Europa construiu suas grandes alianças tecnológicas com os Estados Unidos e a Ásia. O Brasil — e Goiás em particular — pode ser o próximo grande parceiro tecnológico do continente. Não porque é uma tendência. Mas porque os números, as instituições e os talentos estão lá.
Goiânia, 2026: uma cidade que se reinventa
Há algo profundamente inspirador no que Goiás está construindo. Uma cidade que, por décadas, foi conhecida principalmente como a capital do sertanejo e a porta de entrada do Cerrado, está se reinventando como um polo mundial de inovação tecnológica — sem negar o que é, mas acrescentando uma nova camada à sua identidade.
Talvez essa seja a lição mais importante da história tecnológica de Goiânia: a inovação não nasce necessariamente onde se espera. Ela nasce onde há vontade, método, talentos — e espaço suficiente para inventar algo novo.
Em Goiânia, esse espaço existe. E está sendo preenchido, linha de código após linha de código, startup após startup, pesquisador após pesquisador.
O mundo faria bem em começar a olhar.
Brasil à Table
O Brasil não se explica. Se experimenta.
