Afropé: a história de sucesso brasileira que redefine a moda identitária
Há histórias de empresas que começam em incubadoras, com planos de negócio cuidadosamente elaborados e investidores prontos para assinar. E há outras que começam de forma diferente — na sala de casa, em meio a uma pandemia, com um chinelo arrebentado e uma pergunta aparentemente banal: por que não encontramos chinelos que se pareçam com a gente?
Foi dessa pergunta que nasceu a Afropé. E o que aconteceu depois merece ser contado.

Um chinelo arrebentado como ponto de partida
Estamos em 2021. O Brasil está paralisado. As ruas estão vazias, o comércio fechado, a incerteza paira sobre milhões de famílias brasileiras. É nesse contexto — o mais difícil para lançar qualquer coisa — que Sueli Lessa arrebenta um chinelo. Um evento banal. Só que o que vem a seguir não é.
Sueli procura um novo par. Ela procura algo bonito, algo que tenha identidade, algo que realmente se pareça com ela. Ela não encontra. E é aí que tudo começa — não com um plano de negócios, mas com uma ausência. A ausência de um produto que representa uma família, uma cultura, uma identidade.
“Se nós não encontrávamos o que procurávamos, talvez outras pessoas estivessem procurando a mesma coisa.”
Essa frase, dita numa sala de estar na cidade de Osasco, na Grande São Paulo, poderia ter permanecido apenas uma observação. Ela se tornou o alicerce de uma empresa.

800 reais. 30 pares. Uma família.
Décio Lessa, cresceu vendendo sapatos desde os 13 anos. Ele conhece o produto, conhece o cliente, conhece a rua. Aline Lessa, filha do casal, acabara de perder o emprego. Depois de pagar as contas, sobrou 800 reais. Para muita gente, é um período difícil. Para a família Lessa, é o capital inicial.
Os três decidem investir — não numa grande fábrica, não num estoque faraônico, não numa estrutura elaborada. Eles investem em 30 pares de sandálias.
Os primeiros produtos foram fabricados numa fábrica parceira. Resultado: os 30 pares se esgotaram em menos de uma semana.
É o primeiro sinal. Discreto, quase imperceptível. Mas para quem sabe interpretá-lo, ele diz tudo: o mercado existia. Ninguém ainda o tinha enxergado.


O que a Afropé realmente vende
A Afropé nunca foi apenas uma marca de chinelos. Desde o início, os três membros da família Lessa entenderam que seu produto era uma tela — sobre a qual se podia projetar algo maior.
Cada estampa, cada cor, cada motivo impresso nos chinelos carrega referências à cultura afro-brasileira. Ancestralidade. Identidade. Pertencimento. Num país onde a população negra representa mais de 55% dos habitantes, encontrar numa loja um produto de moda que reflita essa identidade ainda é, com frequência, uma exceção.
A Afropé decidiu que essa exceção deveria se tornar a regra.
“Não é só uma sola e algumas tiras. É uma declaração. É dizer: minha cultura também pode estar na moda. Minha identidade também pode ocupar espaço.”
Esse posicionamento — raro, corajoso, profundamente enraizado numa realidade vivida e não num estudo de mercado — é exatamente o que tornou a marca incontornável.



O primeiro grande salto: Carrefour
Em março de 2022, Carrefour, uma das maiores redes varejistas do mundo, entra em contato com a Afropé para comprar 1.500 pares de sandálias.
Uma empresa que havia começado com 30 pares agora precisava entregar 1.500 unidades.
Era preciso se formalizar. Conseguir crédito. Organizar os processos. Entregar.
“Empreender não é só conseguir vender. É conseguir entregar o que você prometeu.”
A Afropé entregou. E essa entrega mudou a natureza da empresa — ela deixava de ser apenas uma história de família. Tornava-se uma realidade comercial.


Amazon, São Paulo Fashion Week
Esse primeiro grande feito abre uma série de portas que a família Lessa talvez não imaginasse tão cedo.
Amazon Brasil. Eventos de moda, empreendedorismo e inovação em nível nacional.
E depois, o inesperado: o São Paulo Fashion Week. A semana de moda paulistana, uma das mais importantes da América do Sul, que recebe as maiores grifes brasileiras e internacionais. A Afropé circulou por lá. Uma marca nascida numa sala de estar em Osasco, com 800 reais, se encontrava nos mesmos espaços que os gigantes do setor.
Isso não é sorte. É o que acontece quando um produto tem algo a dizer — e quando uma família tem a persistência de fazer com que seja ouvido.


Shark Tank: o momento da verdade
Em 2025, a família Lessa entra no estúdio do Shark Tank Brasil — o programa de referência do empreendedorismo brasileiro, exibido pelo Sony Channel — com algo que a maioria dos participantes não tem: uma história.
Não apenas uma apresentação de números. Não apenas projeções financeiras. Uma história verdadeira, tangível, emocional. Quatro anos de uma jornada familiar condensados em poucos minutos diante de investidores que já viram centenas de pitches.
O resultado: uma proposta de aporte de 600 mil reais, por 50% da empresa, por parte dos investidores Carol Paiffer, Caito Maia e Sérgio Zimerman.
Carol Paiffer — uma das mulheres mais respeitadas do ecossistema empreendedor brasileiro, fundadora da Atom S/A, a maior plataforma de formação e trading da América Latina — foi a primeira a levantar a mão.
“Quando entendemos a proposta da Carol, foi como se o tempo tivesse parado. Aos 62 anos, senti uma emoção intensa e compreendi que tudo o que havíamos construído, cada conquista e cada batalha, tinha valido a pena“, conta Décio.
Carol Paiffer resume o que representa esse investimento: “Meu trabalho não é apenas trazer recursos, mas amplificar essa voz, estruturar, conectar pessoas, transformar esse projeto numa realidade em grande escala. Investir na Afropé é investir num legado de identidade e pertencimento. E isso não se mede só em lucro.”

Três pessoas. Três papéis. Uma visão.
O que torna a Afropé particularmente fascinante é a complementaridade de seus três fundadores.
Décio — o homem das vendas, da negociação, da estratégia. Décadas de experiência comercial, instinto de mercado, resistência aos momentos difíceis.
Sueli — a força criativa e identitária. Aquela cuja necessidade revelou a oportunidade, cuja sensibilidade permanece profundamente ligada à essência da marca.
Aline — a nova geração. Comunicação digital, redes sociais, conexão com um público contemporâneo. A ponte entre a visão dos pais e a linguagem do mundo atual.
Não são três pessoas que fazem exatamente a mesma coisa. São três pessoas diferentes construindo a mesma visão. E talvez essa seja uma das grandes forças da Afropé — essa arquitetura humana que reúne experiência, sensibilidade e modernidade dentro de uma mesma família.
O que essa história diz sobre o Brasil
A Afropé não é apenas uma história de sucesso empresarial. É um espelho do Brasil de 2026.
Um país que aprende a valorizar sua própria cultura. Que reconhece na moda, no design, nos produtos do dia a dia, a possibilidade de carregar uma identidade. Que compreende que representatividade não é um conceito abstrato — é algo que se sente quando, finalmente, encontramos um produto que se parece com a gente.
Num mercado global onde os consumidores buscam cada vez mais marcas com forte DNA cultural, história autêntica, impacto social real — a Afropé preenche todos os requisitos. Não porque decidiu isso um dia numa sala de estar. Mas porque é isso que ela sempre foi, desde os primeiros 30 pares, desde os 800 reais, desde aquela sala de estar em Osasco onde tudo começou.

O futuro: além do chinelo
Hoje, a Afropé pretende expandir sua linha para tênis, meias, acessórios e colaborações especiais, sempre com o impacto social e o engajamento comunitário como pilares.
A marca já não pensa apenas em “qual será o próximo modelo de chinelos?”. Ela pensa em “qual será o próximo capítulo da Afropé?”.
E é justamente aí que reside a diferença entre uma empresa e uma marca. Empresas sobrevivem vendendo produtos. Marcas fortes sobrevivem construindo significado.
A Afropé escolheu seu caminho há cinco anos — talvez sem perceber, na época, o quanto essa escolha era certa.
Brasil à Mesa — O Brasil não se explica. Se experimenta.
