Tania Zanella: “O Brasil vai alimentar o mundo”

Na presidência da OCB e do Instituto Pensar Agro, essa advogada natural de Santa Catarina coordena um projeto inspirado no Farm Bill americano — o plano mais ambicioso das últimas décadas para o agronegócio brasileiro: transformar o crédito rural, o seguro agrícola e o Plano Safra em uma verdadeira política de Estado, permanente, previsível e livre do calendário eleitoral

Existem perguntas que um país só se permite fazer quando não pode mais adiá-las. O Brasil, potência agrícola que hoje representa quase 30% do seu Produto Interno Bruto graças ao agronegócio, chegou a uma dessas perguntas: por que a política que sustenta esse gigante ainda é reescrita, negociada e renegociada a cada ano, como se sua importância fosse apenas passageira?

Essa questão move Tania Zanella.

Uma advogada, duas presidências, um mesmo rumo

Nascida em Ipumirim, no interior de Santa Catarina, filha de uma família de agricultores, Tania Zanella construiu uma trajetória que raramente segue uma linha reta — mas que, vista de longe, sempre apontou para o mesmo horizonte. Formada em Direito, ingressou no Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) em 2008 como analista. Quase vinte anos depois, em dezembro de 2025, tornou-se a primeira mulher a presidir a instituição em 57 anos de história.

Ela não parou por aí. Zanella também preside o Instituto Pensar Agropecuária (IPA), organização que reúne as principais lideranças do setor para pensar — como o próprio nome indica — o que vem a seguir. E é sob esse segundo chapéu que nasce o projeto que pode se tornar o legado mais duradouro de sua gestão: uma proposta inspirada no Farm Bill americano, a legislação agrícola dos Estados Unidos que, renovada a cada cinco anos, oferece ao setor produtivo do país algo que o Brasil nunca teve — previsibilidade estrutural.

O problema não é o Plano Safra. É depender exclusivamente dele.

Todos os anos, o setor agropecuário brasileiro espera o anúncio do Plano Safra como quem espera uma sentença: qual montante de crédito subsidiado será liberado, a quais taxas, segundo quais regras. É um instrumento que mobiliza, ano após ano, centenas de bilhões de reais — mas que segue sendo, por natureza, provisório. Renegociado a cada ciclo, submetido às prioridades de cada governo, o Plano Safra se tornou, segundo Zanella e as lideranças que a acompanham, um remendo eficaz demais para um problema grande demais.

O agronegócio brasileiro enfrenta hoje uma pressão inédita: concorrência direta de potências como Estados Unidos e China na produção de matérias-primas agrícolas, exigências ambientais cada vez mais rigorosas, instabilidade climática crescente e insegurança regulatória que trava decisões de investimento de longo prazo. Nesse contexto, planejar um ano de cada vez deixou de ser suficiente.

O Instituto Pensar Agro transforma esse diagnóstico em proposta concreta. O projeto prevê alterações legislativas, uma revisão do Manual de Crédito Rural (MCR) — o conjunto de normas que rege a forma como o dinheiro chega ao produtor — além de parcerias com a B3, a bolsa brasileira, abrindo caminho para novos instrumentos de financiamento que vão além do crédito público tradicional. Um seguro agrícola mais robusto, fontes de capital diversificadas, regras suficientemente estáveis para atravessar diferentes governos: essa é a arquitetura em construção.

Um setor grande demais para depender de um calendário político

O cooperativismo brasileiro — base institucional de Zanella — responde hoje por mais da metade de todos os grãos produzidos no país. O agronegócio como um todo representa quase um terço da economia nacional e gera mais de um quarto dos empregos do país. Diante de números dessa magnitude, a pergunta que Zanella faz publicamente deixa de soar como uma simples figura de linguagem: como sustentar o futuro de um setor dessa envergadura apoiando-se, ano após ano, em negociações que recomeçam do zero?

Sua resposta é direta.

“Não tenho dúvida: o Brasil vai alimentar o mundo.”

Essa frase, dita com a segurança de quem lida com os números do setor há quase vinte anos, resume o espírito do projeto: não se trata de proteger o agronegócio brasileiro do futuro, mas de dar a ele a estrutura de Estado necessária para ocupar, de forma permanente, o papel que hoje exerce apenas de forma intermitente.

O que está realmente em jogo

Se a proposta conduzida pelo Instituto Pensar Agro for adiante — e o momento político parece, pela primeira vez em anos, favorável —, o impacto vai muito além de uma simples reforma técnica do crédito rural. Trata-se de mudar a lógica de fundo: fazer com que o agronegócio brasileiro deixe de ser um setor gerido por programas anuais e passe a ser sustentado por uma política de Estado, o mais protegida possível dos solavancos de cada nova gestão federal.

Para Tania Zanella, reconhecida neste ano pela Forbes como uma das mulheres mais poderosas do Brasil, esse avanço pode se tornar uma marca ainda mais relevante do que sua própria trajetória pioneira à frente da OCB. Não se trata apenas de ter sido a primeira mulher a ocupar esse cargo — trata-se de ter sido a líder que, décadas depois de o setor sonhar com um “Farm Bill brasileiro”, conseguiu tirá-lo do papel.

O Brasil já alimenta boa parte do mundo. A pergunta que Zanella e o Instituto Pensar Agro fazem hoje é se o país está finalmente pronto para construir, com a mesma ambição, a política capaz de sustentar esse papel por décadas — e não apenas pelo tempo de uma safra.

Fontes: Forbes Brasil (Forbes Agro) · Sistema OCB · Instituto Pensar Agropecuária

Brasil à Mesa — seção Economia & Sociedade

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