Bruxelas foi eleita a cidade com a melhor mobilidade urbana do mundo. O vencedor é do Brasil.

Em Goiânia, no coração do Cerrado brasileiro, a inteligência artificial e autocarros elétricos inéditos transformaram os transportes públicos de uma metrópole com dois milhões de habitantes — e surpreenderam o mundo inteiro.

Há vitórias que surpreendem. E há outras que apenas confirmam, para quem acompanhava de perto, aquilo que os dados já deixavam antever há alguns anos. No dia 23 de junho de 2026, durante uma cerimónia realizada em Bruxelas que reuniu autoridades, especialistas e operadores de mobilidade urbana de todo o mundo, os UITP Awards 2026 — a mais prestigiada distinção mundial no setor dos transportes públicos — atribuíram o primeiro prémio ao estado de Goiás, na região Centro-Oeste do Brasil.

No palco, Leomar Avelino, diretor-executivo do Consórcio RedeMob, recebeu o galardão das mãos de Gautier Brodeo, presidente da UITP, e de Lilli Matson, vice-presidente da organização. A sala, em Bruxelas, aplaudiu de pé. Em Goiânia, uma cidade raramente destacada nos atlas europeus, milhões de passageiros que utilizam diariamente os transportes públicos acabavam de entrar para a história do urbanismo mundial.

O galardão que realmente importa

Para compreender a dimensão desta distinção, é preciso perceber o que representa a UITP. A União Internacional dos Transportes Públicos é a organização mundial que reúne operadores, autoridades e empresas do setor em cerca de 100 países. Os UITP Awards distinguem os projetos que mais se destacam pela inovação, sustentabilidade, eficiência operacional e impacto positivo na vida das pessoas.

Não se trata de um prémio atribuído por especialistas em comunicação ou marketing, mas de um reconhecimento concedido por técnicos, operadores e peritos que avaliam resultados concretos, comparam sistemas de transporte de vários continentes e decidem com o rigor de quem sabe exatamente o que procura.

Goiânia venceu a categoria Experiência do Cliente e Mudança Modal, superando candidaturas da Austrália e do México — dois países cujos sistemas de transporte público gozam de sólida reputação internacional e beneficiam de investimentos muito significativos. A vitória brasileira não foi um gesto diplomático. Foi o resultado de uma demonstração inequívoca de excelência técnica.

O projeto que mudou tudo: a inteligência artificial ao serviço do autocarro

O dossiê apresentado tinha como título Nova Mobilidade: Uma Transformação Centrada no Cidadão na Região Metropolitana de Goiânia. Por detrás deste nome encontra-se uma inovação tecnológica que nunca antes tinha sido implementada, a esta escala, em qualquer outra parte do mundo.

Pioneira à escala mundial, a metronização dos corredores de autocarros utiliza inteligência artificial, semáforos inteligentes e monitorização em tempo real para dar prioridade aos autocarros nos cruzamentos. O sistema está atualmente em funcionamento no corredor BRT Este-Oeste e na integração com o corredor Norte-Sul. A operação envolve 65 semáforos inteligentes, cerca de 200 equipamentos ligados à Central Integrada de Trânsito e Transporte (CITT), câmaras de alta definição e um sistema de GPS em tempo real.

Os resultados são imediatos e mensuráveis: em alguns troços abrangidos por este projeto de metronização dos corredores, o tempo de viagem foi reduzido em até 31%, tornando os percursos mais rápidos e previsíveis. Trinta e um por cento. Numa região metropolitana onde centenas de milhares de trabalhadores e estudantes dependem diariamente do autocarro, este número traduz-se em horas recuperadas, menos fadi

Uma frota que redefine os padrões mundiais

A reforma não se limitou aos algoritmos. Materializou-se numa frota totalmente renovada, cujos elementos, em alguns casos, não têm equivalente em qualquer outra parte do mundo. Goiás integrou na sua rede veículos menos poluentes, entre os quais autocarros elétricos articulados — incluindo os maiores autocarros elétricos biarticulados em operação regular no mundo —, veículos movidos a biometano e modelos equipados com tecnologia Euro VI, que reduzem significativamente as emissões de gases com efeito de estufa.

Estes investimentos não são protótipos apresentados em feiras ou exposições. São autocarros que circulam diariamente, passageiros que os utilizam e uma transformação operacional concreta, visível no dia a dia. O sistema incluiu igualmente a modernização dos terminais e das estações, bem como a implementação de tecnologias avançadas de gestão, como a sincronização inteligente dos semáforos e a monitorização em tempo real dos corredores de transporte.

O milagre tarifário: sete anos sem aumento do preço dos bilhetes

Há uma dimensão desta vitória que os especialistas em transportes públicos destacaram com particular atenção e que merece ser referida sem rodeios. O governador Daniel Vilela resumiu-a nas suas próprias palavras durante a cerimónia em Bruxelas:

« E o mais importante: sem fazer recair esse custo sobre os passageiros. Em Goiás, a tarifa do autocarro mantém-se nos 4,30 reais. Não houve qualquer aumento desde 2019. »

Sete anos sem qualquer aumento tarifário. Num país onde as grandes áreas metropolitanas têm aumentado regularmente o preço dos transportes públicos nos últimos anos, invocando a subida dos custos operacionais, dos combustíveis, da manutenção e da massa salarial, Goiás conseguiu, ao mesmo tempo, modernizar o seu sistema e manter as tarifas estáveis.

Esta equação — melhorar a qualidade do serviço sem aumentar o custo para os passageiros — é precisamente o desafio que os especialistas mundiais em mobilidade urbana procuram resolver há décadas. Goiânia acaba de demonstrar que essa equação tem, afinal, solução.

De onde veio esta transformação?

Diário do Transporte, publicação de referência do setor no Brasil, recorda que o sistema de transportes de Goiânia se encontrava, ainda há poucos anos, num estado de degradação avançada: autocarros extremamente envelhecidos e sujeitos a avarias frequentes, corredores em mau estado de conservação, terminais sujos e mal iluminados faziam parte do quotidiano dos passageiros. A transformação, por isso, não começou a partir de uma posição confortável. Foi conquistada a partir de uma situação de crise estrutural.

O modelo de governação adotado reuniu o Estado, os municípios e as empresas concessionárias — através do Consórcio RedeMob e do Consórcio BRT — em torno de uma estratégia comum, permitindo investimentos coordenados e soluções de longo prazo para o transporte coletivo. Foi este modelo de parceria, tão discreto quanto decisivo, que tornou possível uma transformação que muitos consideravam impossível.

O próprio governador Daniel Vilela concluiu com uma frase que soa como uma resposta aos céticos:

« Muitos diziam que não era possível transformar o transporte coletivo da Região Metropolitana. Hoje, vemos um sistema completamente transformado e reconhecido internacionalmente. »

O que Bruxelas disse sobre Goiânia

Com esta vitória, Goiânia passa a integrar o grupo das cidades consideradas referências mundiais em mobilidade urbana, ao lado de projetos desenvolvidos na China, Itália, Índia, Austrália, Estados Unidos, Colômbia, México e Taiwan. Já não se trata de uma lista de candidatos promissores. Trata-se de uma lista de quem faz acontecer.

Para os leitores do Brasil à Table, esta distinção tem um significado muito particular. Goiânia é a capital de Goiás — um estado do Cerrado, da agroindústria e de um Brasil que, durante muito tempo, foi ofuscado pelos estereótipos associados ao Rio de Janeiro ou aos arranha-céus de São Paulo. Esta cidade de dois milhões de habitantes, fundada de raiz em 1933 nas planícies avermelhadas do sertão central, acaba de demonstrar, em Bruxelas e perante o mundo inteiro, que faz hoje parte das metrópoles mais inovadoras do planeta no domínio que mais diretamente influencia o quotidiano dos cidadãos: a forma como se deslocam.

Um autocarro de Goiânia acaba de ser oficialmente reconhecido como um dos melhores do mundo. E, desta vez, o mundo voltou o olhar para o Cerrado.

Fontes: Agência Goiás · Diário do Transporte · Revista Zelo · Portal GO 020 · Expresso 360 · NTU · Portal Serra Dourada News · Jornal de Brasília · O Hoje · UITP 2026

Obrigado pela sua leitura.

Receba gratuitamente nossa newsletter com conteúdo original sobre o Brasil contemporâneo. Apoie nosso projeto, sem compromisso.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *