Odilson Ribeiro: de Minas Gerais a Bruxelas, uma vida dedicada à terra e à cultura alimentar
Da infância em São João del-Rei à trajetória nas relações agroalimentares internacionais, até reencontrar, em seu jardim brasileiro, o prazer de cultivar, colher e cozinhar, Odilson Ribeiro conta uma história em que ciência, memória e boa mesa são inseparáveis.


Há trajetórias que, à primeira vista, parecem pertencer a universos diferentes. Ciência, políticas agrícolas, negociações internacionais e cozinha familiar parecem fazer parte de mundos distintos. No entanto, na vida de Odilson Ribeiro, essas dimensões se encontram em torno de um mesmo fio condutor: a terra, os alimentos que ela produz e a maneira como as sociedades aprendem a valorizá-los. Da infância no estado brasileiro de Minas Gerais aos anos de estudo e trabalho na Bélgica, passando por suas responsabilidades no setor agroalimentar, sua história revela uma relação singular com a alimentação. Hoje, em seu jardim, em Brasília, essa relação ganha forma concreta: árvores frutíferas, plantas aromáticas, café cultivado em casa e uma diversidade vegetal que alimenta tanto sua cozinha quanto sua curiosidade.

Para compreender essa história, é preciso voltar a São João del-Rei, cidade histórica de Minas Gerais onde Odilson cresceu. Seu primeiro contato com o cultivo de plantas remonta à Escola Infantil Bárbara Heliodora, onde descobriu o prazer de cultivar hortaliças em uma horta comunitária. A experiência pode parecer simples, mas, olhando para trás, representa uma das primeiras lembranças de um vínculo que nunca mais o abandonaria. Mais tarde, no Grupo Escolar João dos Santos, uma escola tradicional do centro histórico, uma professora, Terezinha Pinheiro, incentivou seu interesse pela biologia e pela química. Duas áreas que, embora ele ainda não soubesse, orientariam suas escolhas acadêmicas e grande parte de sua vida profissional.
Em casa, a comida ocupava um lugar importante. Odilson se lembra de uma família em que a mesa e a despensa estavam sempre generosamente abastecidas. Seu pai, descendente de uma família de proprietários rurais do município vizinho de Ritápolis, transmitiu-lhe o gosto pelas plantas, pelo cultivo e pela diversidade dos produtos locais. Não muito longe de casa, o mercado municipal lhe oferecia outra perspectiva sobre o universo alimentar: ele gostava de descobrir os produtos provenientes das propriedades de famílias de origem italiana estabelecidas na região. Assim, aprendeu desde cedo que a alimentação não se resume ao que chega ao prato. Ela também conta a história de um território, de saberes, de origens e de modos de vida.
A própria cozinha familiar reunia diferentes influências. A tradição rural mineira, frequentemente designada no Brasil pela expressão cozinha caipira, misturava-se aos hábitos culinários ligados à imigração italiana. Sua mãe, Dona Glória, era uma cozinheira habilidosa, capaz de preparar doces, bolos e confeitos, às vezes até sob encomenda para casamentos e festas. Seu pai também gostava de preparar pratos simples e fartos: mingaus para o café da manhã, frutas cortadas, arroz-doce e especialidades regionais. Ele gostava de convidar os amigos do filho para almoçar e os incentivava a repetir a refeição, convencido de que ter bom apetite era uma forma de demonstrar apreço pelo que lhes era oferecido.
Naquela casa, a transmissão de conhecimentos não acontecia apenas por meio das receitas. Cici, a ajudante da família que participava dos preparativos na cozinha, cantava enquanto preparava as refeições. Ela havia aprendido a cozinhar com Dona Glória e acompanhava seus movimentos com canções românticas que ouvia na rádio local. Essa lembrança revela muito sobre o ambiente em que Odilson cresceu: a cozinha era um espaço de trabalho, partilha e convivência, onde os alimentos eram preparados ao ritmo das conversas e da música. Muito antes de se interessar pelas políticas agrícolas ou pelas normas internacionais, ele já descobria a dimensão profundamente humana da comida.
Seu interesse pela biologia e pela química o levou, posteriormente, à agronomia. Ele se inscreveu em dois processos seletivos universitários: um para agronomia, em Lavras, e outro para medicina, em Barbacena. Aprovado na antiga Escola Superior de Agricultura de Lavras, hoje Universidade Federal de Lavras, acabou escolhendo a agronomia. Durante os estudos, apaixonou-se especialmente pela bioquímica, pelos microrganismos e pela engenharia de alimentos. A produção sustentável de alimentos tornou-se, progressivamente, um tema central de suas reflexões. Depois de concluir a formação, também lecionou biologia em São João del-Rei, no Colégio Estadual e na Faculdade Dom Bosco.
Essa formação científica abriu para ele uma perspectiva mais ampla do que a produção agrícola propriamente dita. Odilson compreendeu que a qualidade dos alimentos depende tanto da terra quanto das técnicas de cultivo, dos processos de transformação posteriores à colheita e das condições econômicas em que os produtores trabalham. Um alimento não alcança todo o seu valor no momento em que é colhido. Também é preciso saber transformá-lo, conservá-lo, comercializá-lo e apresentá-lo. Essa reflexão, que ganharia importância ao longo de sua trajetória, o levaria a se interessar pelas relações entre agricultura, economia e comércio internacional.
Uma bolsa de estudos lhe permitiu dar continuidade a essa reflexão na Bélgica, na Escola de Agronomia de Gembloux, onde estudou economia e sociologia rurais. A experiência marcou uma etapa importante: ele descobriu que a produção agrícola não pode ser compreendida sem levar em conta as relações humanas, os mercados e as estruturas que organizam as cadeias produtivas de alimentos. Seus trabalhos abordaram, entre outros temas, a produção de etanol no Brasil e o desenvolvimento da produção de óleo de palma no país. Este último assunto estava diretamente relacionado à sua atividade profissional no Ministério da Agricultura brasileiro, onde trabalhou em um programa de incentivo ao cultivo da palma de óleo em regiões consideradas adequadas a essa produção.

A Bélgica se tornou, em seguida, muito mais do que um lugar de estudos. Bruxelas, onde viveu em duas ocasiões, permitiu-lhe conhecer de perto os mecanismos das relações agroalimentares internacionais. Sua trajetória o levou a trabalhar com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, e com o Mercosul, especialmente em questões relacionadas à sanidade vegetal. No Ministério da Agricultura brasileiro, atuou na área de proteção de plantas e participou da estruturação das atividades dedicadas às relações internacionais do setor agrícola. Tornou-se o primeiro adido agrícola do ministério em Bruxelas e integrou o primeiro grupo de oito adidos agrícolas brasileiros enviados ao exterior.

Essa função consistia em estabelecer a ligação entre instituições, exigências regulatórias e interesses do setor agrícola brasileiro. Por trás do comércio de produtos alimentícios existem normas sanitárias e fitossanitárias, procedimentos, controles e negociações que podem ser complexos. Para exportar um alimento, não basta que ele agrade aos consumidores: também é necessário atender às exigências do mercado ao qual se destina. O conhecimento científico adquirido durante seus estudos tornou-se, então, uma ferramenta essencial para compreender as regras comerciais e contribuir para as discussões que orientam as trocas internacionais.
Ao retornar ao Brasil, Odilson foi nomeado secretário de Relações Internacionais e participou de diferentes negociações ligadas ao setor agroalimentar, especialmente no âmbito do Mercosul e da União Europeia, além de atuar no Codex Alimentarius, organismo internacional responsável pela elaboração de normas alimentares de referência. Sua trajetória permitiu-lhe observar os produtos brasileiros sob diferentes perspectivas: a de sua produção, a de sua adequação às exigências dos mercados e a de seu lugar no comércio internacional.


Foi justamente na Europa que ele tomou consciência de uma questão que ainda hoje o preocupa: a maneira como os produtos alimentícios adquirem um valor que vai além de sua qualidade intrínseca. Em Bruxelas, observou como os agentes europeus trabalham a apresentação, a identidade e o posicionamento dos alimentos. Um produto pode ser excelente, mas seu reconhecimento também depende da maneira como sua origem, suas características e os conhecimentos envolvidos em sua produção são apresentados ao consumidor. As marcas, as histórias associadas aos territórios e a coerência entre produção e comercialização desempenham um papel importante nessa percepção.
Para Odilson, o Brasil dispõe de inúmeras vantagens para desenvolver essa abordagem. A diversidade de sua produção, a extensão de seus territórios agrícolas e o conhecimento acumulado por seus produtores constituem uma base considerável. No entanto, em sua avaliação, o país poderia coordenar melhor produtores, transformadores e poder público para dar mais visibilidade e valor aos seus produtos. Essa reflexão dialoga com uma questão essencial para o público francófono: como um país pode ser reconhecido não apenas pela quantidade do que produz, mas também pela singularidade, pela qualidade e pela história de seus alimentos?
Depois de se aposentar do Ministério, Odilson retomou uma relação mais direta com a produção. Seu jardim em Brasília tornou-se um espaço onde se encontram a experiência profissional, a curiosidade botânica e o prazer de cultivar. Ele prefere muitas vezes falar de seu quintal, palavra portuguesa que evoca o jardim ao redor da casa, um espaço cotidiano, familiar e cheio de vida. O terreno não é enorme, mas foi organizado para aproveitar cada parte da área disponível. Plantas ornamentais convivem com vegetais comestíveis, árvores frutíferas, ervas utilizadas em infusões e plantas alimentícias menos conhecidas, chamadas no Brasil de PANC — plantas alimentícias não convencionais.



Odilson estima ter reunido mais de uma centena de variedades vegetais. Entre as que lhe são particularmente queridas está o café Bourbon Vermelho, que cultiva e processa para consumo próprio. Ele fala com orgulho do fato de produzir todo o café que bebe em casa. Essa produção exige trabalho e atenção, mas lhe proporciona uma satisfação especial: conhecer a origem daquilo que consome, acompanhar cada etapa e saborear o resultado do próprio esforço.
Ao redor do café, o jardim abriga jatobás, diversas variedades de laranjeiras, limoeiros e mangueiras. Plantas como o crajiru, também chamado de mariri em determinados contextos, enriquecem a diversidade do espaço. Odilson também começou a produzir mel de abelhas nativas sem ferrão, outro exemplo de seu interesse pelos recursos vivos do ambiente em que vive. O jardim, portanto, não se limita a fornecer ingredientes. Ele se transforma em um pequeno espaço de observação, onde a diversidade de espécies permite descobrir diferentes possibilidades alimentares e compreender melhor as relações entre plantas, estações do ano e usos domésticos.

Essa diversidade, no entanto, exige atenção constante. O dia a dia de Odilson é marcado pela rega, pela adubação, pelas colheitas e pelo processamento de algumas plantas destinadas à preparação de bebidas ou pratos. Ele também acompanha as necessidades dos pássaros que visitam o terreno e cuida da manutenção do espaço. Mesmo contando com a ajuda de um jardineiro, o trabalho é considerável. Cultivar em casa pode parecer uma experiência idílica, mas essa prática lembra uma realidade muitas vezes esquecida: por trás de cada colheita há tempo, gestos repetidos e conhecimento prático sobre as necessidades das plantas.
O que é colhido vai naturalmente para a cozinha. Odilson cita um exemplo particularmente revelador de sua maneira de trabalhar: a preparação de uma páprica picante caseira, feita com pimentas rocoto, de origem peruana, cultivadas no jardim, e pimentões vermelhos destinados à secagem. Depois de secos e triturados, os ingredientes se transformam em um tempero que ele utiliza em suas preparações e sopas. O interesse dessa prática está tanto no resultado quanto no processo: cultivar, colher, transformar e utilizar um ingrediente cuja história ele conhece por inteiro.
A cozinha de Odilson também reflete as influências que marcaram sua trajetória. Às tradições de Minas Gerais somam-se as heranças portuguesa e italiana, já presentes em sua cidade natal, além da culinária libanesa de seu companheiro. Essas influências não são apresentadas como tradições isoladas, mas como práticas que se encontram no cotidiano, ao longo das refeições e a partir dos ingredientes disponíveis.
Entre os pratos aos quais tem especial apreço, a moqueca de bacalhau fresco ocupa um lugar particular. A ideia surgiu em Bruxelas, quando ele procurava combinar uma preparação brasileira com um ingrediente estreitamente ligado à tradição culinária portuguesa. Inspirada na versão capixaba, a moqueca permitiu reunir os dois universos em um único prato. Mais tarde, ele a preparou para convidados brasileiros e estrangeiros que recebeu em casa. Essa criação ilustra sua maneira de compreender a cozinha: não como um patrimônio imutável, mas como uma linguagem capaz de aproximar culturas.
Ele também reconhece, nessas diferentes tradições, uma atenção comum à frescura dos ingredientes e ao equilíbrio dos temperos. Produtos curados e maturados, como certos queijos e presuntos, têm seu lugar em diversas cozinhas europeias, enquanto saladas, tomates e ervas frescas acrescentam outra dimensão às refeições. Em Minas Gerais, os temperos costumam ser usados com moderação, permitindo que os ingredientes expressem seus próprios sabores. Para Odilson, cozinhar bem não significa multiplicar os elementos, mas saber combiná-los.
Sua concepção de boa mesa, porém, vai além do preparo dos pratos. Para ele, ela representa qualidade de vida, uma maneira de compartilhar experiências e criar vínculos com pessoas que atribuem importância semelhante ao ambiente em que vivem e à alimentação. Em seu bairro, as conversas entre vizinhos sobre jardins, colheitas e dificuldades do cultivo doméstico enriquecem essa experiência. A comida se torna um ponto de encontro, um assunto para conversar e uma oportunidade de transmitir conhecimentos práticos.
Ao falar dos leitores francófonos, Odilson deseja, acima de tudo, que eles possam descobrir a diversidade da cozinha brasileira e a riqueza de seus ingredientes. Espera que reconheçam, em alguns pratos, lembranças de suas próprias tradições familiares. Afinal, apesar das diferenças entre países e receitas, as cozinhas domésticas compartilham frequentemente a mesma lógica: aproveitar ao máximo os produtos disponíveis, cozinhar com atenção e fazer da mesa um lugar de encontro. Em uma vida moderna que acelera os ritmos e, por vezes, afasta os consumidores da produção dos alimentos, essa relação direta lhe parece merecer uma nova atenção.
E, se um leitor fosse almoçar em seu jardim de Brasília, o que encontraria à mesa? Odilson não fica sem ideias. Ele sugere uma refeição composta por arroz com lentilhas à moda libanesa, salada acompanhada de iogurte natural e tepache de jabuticaba, uma bebida fermentada inspirada na tradição mexicana e adaptada, nesse caso, a uma fruta brasileira. Para terminar, serviria pessegada ou goiabada, duas preparações à base de frutas que podem ser degustadas com um queijo mineiro maturado.
Esse cardápio resume com simplicidade sua trajetória. Nele estão Minas Gerais, de sua infância, o diálogo com cozinhas estrangeiras, as experiências acumuladas no cenário internacional e os produtos de seu jardim. Nada é apresentado como uma demonstração: as influências se encontram naturalmente no prato, por meio de combinações que fazem sentido para quem as prepara.
A trajetória de Odilson Ribeiro nos lembra, por fim, que a cultura alimentar não se constrói apenas nos restaurantes, nas grandes propriedades agrícolas ou nas instituições responsáveis por regulamentar o comércio. Ela também se desenvolve nos jardins domésticos, nas cozinhas familiares e nos gestos repetidos ao longo das estações. Uma carreira dedicada às questões agroalimentares internacionais pode, assim, encontrar continuidade em uma atividade muito pessoal: cultivar algumas plantas, colher os próprios ingredientes e preparar uma refeição para as pessoas próximas.


Em Brasília, seu jardim é muito mais do que um espaço de cultivo. É o lugar onde se encontram uma formação científica, uma experiência internacional e uma memória familiar profundamente enraizada em Minas Gerais. De São João del-Rei a Bruxelas e, depois, de Bruxelas a esse jardim brasileiro, o fio condutor permanece o mesmo: compreender os alimentos, respeitar sua origem e reconhecer o valor daquilo que chega à mesa.
Porque, para Odilson, a boa mesa começa muito antes da refeição. Começa na terra, prossegue nos gestos de quem cultiva e prepara os alimentos e encontra seu sentido pleno quando se transforma em uma experiência compartilhada.
Brasil à Table — seção Economia e Sociedade
