Farm Rio: como uma marca brasileira se tornou uma das mais desejadas do mundo

Nascida numa feira do Rio de Janeiro em 1997, a grife dos estampados tropicais conquista hoje Paris, Londres e Nova York — com 400 milhões de euros de faturamento e mais de 100 lojas no planeta.

Há algo irresistível no perfume da Farm Rio. Não um perfume no sentido literal — embora a marca tenha lançado recentemente sua primeira linha de fragrâncias — mas essa sensação de que cada vestido, cada estampado, cada peça carrega um pedaço de céu tropical, um brilho de samba, a luz particular que cai sobre a praia de Ipanema às cinco da tarde. É exatamente essa promessa que mulheres de Nova York a Londres, de Paris a Dubai, disputam com uma paixão que nada deve às grifes mais consagradas do luxo ocidental.

A história começa, como geralmente as mais bonitas, no improvável. Em 1997, dois amigos, Kátia Barros — então auditora financeira reconvertida pelo amor à moda — e Marcello Bastos, montam uma banca modesta na Babilônia Feira Hype, feira itinerante no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Sem desfile, sem investidores, sem estratégia de marca cuidadosamente orquestrada. Apenas vestidos de cores explosivas, estampados florais e animalescos que pareciam ter absorvido toda a biodiversidade do Atlântico, e uma certa ideia de felicidade que se carrega no corpo.

“Me sentia profundamente emocionada de poder, através da moda, representar o Brasil — esse país de uma beleza e de uma cultura tão ricas — e minha cidade natal, o Rio de Janeiro.”


Kátia Barros, cofundadora e diretora criativa da Farm Rio

O borogodó como filosofia

Para entender a Farm Rio, é preciso primeiro entender essa palavra intraduzível que os brasileiros usam para descrever a energia magnética, sensual e alegre que emana de uma pessoa, de um lugar ou de um momento: o borogodó. É a alma da marca, sua razão de ser, seu argumento de venda mais radical num universo da moda frequentemente marcado pela austeridade, pelo minimalismo ou pela ironia fria. A Farm Rio assume a alegria. Reivindica, estampa e vende sem pedir desculpas.

Kátia Barros nunca pretendeu criar roupas para aparentar. Ela quer roupas para sentir. Cada coleção reúne mais de setecentos estampados exclusivos criados por um estúdio de estilo de duzentas e cinquenta pessoas, a maioria mulheres — uma escolha deliberada, quase militante, numa indústria onde os cargos de direção criativa ainda são amplamente ocupados por homens. Palmeiras, onças multicoloridas, flores gigantes, zebras iridescentes: esses motivos não são decoração, são uma declaração.

Presente nas araras do Bon Marché, da Samaritaine, do Printemps e das Galeries Lafayette, a Farm Rio é hoje uma das marcas estrangeiras mais visíveis no mercado francês. Seu primeiro pop-up parisiense, em 2022, gerou filas que não se viam desde o lançamento de coleções-cápsula das grandes maisons.

Do Rio a Chelsea, a conquista do mundo

A internacionalização da marca não aconteceu às pressas. Depois de construir um império de mais de uma centena de lojas pelo Brasil e integrar o Grupo Soma — que se tornou o Azzas 2154, o maior grupo de moda da América Latina — a Farm Rio decidiu rebatizar a parte do negócio voltada para a exportação: Farm Rio passa a ser um nome que carrega uma geografia, uma promessa, uma origem reivindicada com orgulho.

Já em 2019, a marca se instala nos Estados Unidos, abrindo sua primeira loja no bairro de SoHo, em Nova York. A reação é imediata. Nas ruas de Manhattan, começam a aparecer silhuetas vestidas com estampados tropicais que até então só se via nas praias de Ipanema. Jennifer Lopez usa um vestido Farm Rio em sua lua de mel com Ben Affleck. A máquina do desejo está em movimento.

A Europa vem em seguida. Londres primeiro, com uma loja âncora na King’s Road, em Chelsea — centésimo ponto de venda mundial da marca — acompanhada de uma coleção cápsula batizada de London goes bananas, com aquele senso de autodepreciação que os britânicos sabem apreciar. Depois Paris, onde uma loja própria abre suas portas, coroando anos de presença em corners e pop-ups nos grandes magazines da capital.

A diplomacia dos estampados: Adidas, Sézane e a arte da colaboração

Uma das chaves do sucesso internacional da Farm Rio está em sua capacidade de se aliar sem se dissolver. Desde 2014, a marca colabora todo ano com a Adidas em coleções de moda esportiva que misturam as três listras icônicas da gigante alemã com os estampados tropicais cariocas. O resultado, disponível em cinquenta e cinco países, é uma joia de dupla hibridização cultural: a eficiência germânica a serviço da sensualidade brasileira. Em 2025, a décima edição dessa colaboração celebra uma década de parceria comercial e estética sem precedentes.

Mas é talvez a colaboração com a Sézane que melhor diz o que a Farm Rio se tornou no cenário internacional. Quando Morgane Sézalory, fundadora do label parisiense, encontra Kátia Barros, é um diálogo entre duas visões do feminino que pareciam inconciliáveis: a sobriedade parisiense de um lado, a exuberância tropical do outro. A coleção resultante — quarenta peças misturando os cortes limpos da Sézane com os estampados solares da Farm Rio — torna-se um dos grandes sucessos da temporada. O je ne sais quoi parisiense encontra o borogodó carioca: Paris ama o Rio, e o Rio retribui.

“Senti uma conexão imediata ao conhecer Kátia Barros. Compartilhamos as duas uma paixão ardente por peças criativas em paletas de cores surpreendentes, que se pode usar para sempre.”
Morgane Sézalory, fundadora da Sézane

A floresta que sustenta a grife

É difícil falar da Farm Rio sem abordar o que, aos olhos de seus fundadores, dá um sentido mais profundo a toda a aventura comercial: o compromisso ambiental. A marca se impôs uma regra simples, que virou seu credo: cada compra gera o financiamento de uma árvore plantada em um dos seis biomas brasileiros — Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado, Pampa e Pantanal. Desde 2019, mais de um milhão e meio de árvores foram plantadas, com a ambição de plantar mil árvores por dia, todos os dias.

A iniciativa vai além do reflorestamento. A Farm Rio é membro do Pacto Global das Nações Unidas, tem balanço de carbono neutro em todas as suas operações e incorpora progressivamente materiais responsáveis em suas coleções: viscose EcoVero, algodão orgânico, poliéster reciclado. A marca reconhece abertamente que ainda há muito caminho pela frente — produzir mais de setecentos estampados e quatro mil e quinhentos modelos por ano não é, em si, um ato ecológico — mas assume essa tensão com uma transparência rara no setor.

“A natureza é nossa maior fonte de inspiração desde 1997”, repete Kátia Barros. “Acreditamos que é nosso dever ajudá-la a se proteger.” Num setor frequentemente acusado de greenwashing, esse enraizamento na realidade do território brasileiro — essa consciência de que as flores estampadas nos vestidos são as mesmas que desaparecem todos os dias nos incêndios da Amazônia — confere à marca uma credibilidade que o dinheiro sozinho não compra.

O futuro em technicolor

Em 2026, a Farm Rio não desacelera. A marca continua abrindo lojas pelo mundo — Chicago, Washington, Seattle nos Estados Unidos; Mykonos, Dubai, Bodrum para capturar as temporadas de verão dos mais abastados; e a perspectiva de uma linha infantil, de produtos de lifestyle e de novas fragrâncias para transformar a grife em universo completo. O e-commerce representa hoje metade das vendas internacionais, sinal de uma geração de clientes que descobre o Brasil numa tela antes de vesti-lo no corpo.

O que Kátia Barros e Marcello Bastos realizaram em menos de três décadas é um prodígio: transformar uma banca de feira num fenômeno global, sem nunca trair a origem nem ceder às sirenes da mesmice universal. Num mundo da moda saturado de coleções intercambiáveis e logos sem história, a Farm Rio escolheu ser irredutivamente ela mesma: brasileira, alegre, colorida, viva. E é exatamente por isso que o mundo inteiro, hoje, quer um pedaço dela.

Brasil à Table — O Brasil não se explica. Se experimenta.

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