Viola Davis escolheu o Brasil.
A atriz oscarizada entra como produtora executiva num filme nascido na periferia de Cuiabá — uma cidade do interior do Brasil que ninguém esperava encontrar no caminho do Oscar
Há uma cena que quem ama cinema no Brasil não vai esquecer tão cedo. Foi em janeiro de 2025, na cerimônia do Globo de Ouro em Los Angeles. Viola Davis, atriz oscarizada e uma das vozes mais poderosas de Hollywood, subiu ao palco para anunciar a vencedora de Melhor Atriz em filme dramático. Ela abriu o envelope. E foi um nome brasileiro que ela pronunciou: Fernanda Torres, por Ainda Estou Aqui. Naquela noite, algo aconteceu entre Viola Davis e o cinema brasileiro. Um olhar. Um reconhecimento. Uma conexão que, poucos meses depois, tomaria a forma de um compromisso concreto, mensurável e histórico.
A Ashé, produtora fundada por Viola Davis, pelo ator e produtor Julius Tennon e pelo produtor brasileiro Maurício Mota, acaba de entrar no projeto Cinco Tipos de Medo como produtora executiva — e com ela, uma ambição que vai muito além das fronteiras do Brasil.
Um filme nascido de um caso real em Cuiabá
Para entender por que esse filme fascina, é preciso voltar à sua origem — e ela é tão inesperada quanto impactante. A trama acompanha Marlene — interpretada por Bella Campos —, uma enfermeira dividida entre o amor e o perigo, e Sapinho — interpretado por Xamã —, um traficante local considerado o guardião da segurança do bairro onde vivia. O filme é inspirado num fato real ocorrido na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, onde moradores se reuniram para pagar a fiança de um líder comunitário com ficha policial extensa, com medo de que sua ausência deixasse a região vulnerável à violência de facções rivais.
Essa história — comunitária, moral, profundamente humana — não é a que se esperaria tornar um fenômeno internacional. Não se passa no Rio nem em São Paulo. Não foi feita pelas grandes produções habituais do cinema brasileiro. Ela vem do Mato Grosso, do interior do país, de uma cidade que a geografia do cinema costuma ignorar. E é exatamente por isso que mudou tudo.

Gramado 2025: a revelação
Dirigido por Bruno Bini e produzido por Luciana Druzina, Cinco Tipos de Medo conquistou quatro prêmios no Festival de Gramado 2025, incluindo o Melhor Filme — concedido pelo júri oficial —, além de Melhor Roteiro e Melhor Montagem para Bruno Bini, e Melhor Ator Coadjuvante para Xamã.
Quatro Kikitos — os troféus dourados do maior festival de cinema do Brasil — na mesma noite. É uma façanha que poucos filmes alcançam, e menos ainda obras vindas de um diretor fora dos circuitos dominantes do audiovisual brasileiro. O próprio Bruno Bini formulou com rara precisão o que seu filme conseguiu: “Foi incrível ver como uma história tão local, tão particular, encontra eco em públicos tão diversos. No fundo, é um filme sobre a conexão entre as pessoas — e isso é profundamente universal.”
Viola Davis, Maurício Mota e a ponte entre dois mundos
A Ashé Ventures foi fundada por Viola Davis, seu marido Julius Tennon e o produtor brasileiro Maurício Mota, indicado ao Emmy Awards. Essa parceria de três frentes é, por si só, uma declaração de intenção: uma produtora americana com alma brasileira, uma ponte institucional entre Hollywood e o cinema latino-americano, criada exatamente para fazer o que ninguém fazia o suficiente: levar histórias brasileiras para as salas e cerimônias do mundo inteiro.
Maurício Mota explicou a lógica da iniciativa: “A entrada da Ashé em Cinco Tipos de Medo confirma a estratégia do Grupo Reclaim de investir no soft power brasileiro para o mundo. Acreditamos muito no potencial do filme no mercado internacional. É uma alegria trabalhar com uma produtora e um diretor fora do eixo dominante do audiovisual brasileiro, com roteiro, direção e performances tão fortes.”
Luciana Druzina, produtora do filme e fundadora da Druzina Content, celebrou a aliança: “Essa conexão mostra que histórias profundamente brasileiras também podem tocar públicos do mundo inteiro. Acreditamos que as histórias brasileiras, quando contadas com verdade, identidade e excelência, têm a capacidade de cruzar fronteiras, fortalecendo também o movimento de exportação da nossa indústria audiovisual.”
A máquina do Oscar entra em movimento
A ambição da parceria Ashé–Malin Entertainment é clara e publicamente assumida. A Malin Entertainment assumiu a representação internacional do filme, cuidando das vendas e da campanha para os prêmios, com foco na corrida ao Oscar. O calendário de festivais e a distribuição global serão definidos pela Malin e pela Ashé nas próximas semanas.
O objetivo estratégico da Ashé Ventures é impulsionar o lançamento mundial da obra, com a esperança de indicar o filme como representante oficial do Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2027 — repetindo assim a trajetória histórica de Ainda Estou Aqui, que levou Fernanda Torres ao Globo de Ouro em 2025. Sessões em Los Angeles já estão previstas para as próximas semanas, primeiro passo de uma campanha pensada para fazer a voz de Cuiabá ecoar nos corredores da Academia.
O que esse filme diz sobre o Brasil de 2026
Há na trajetória de Cinco Tipos de Medo algo que vai além do cinema. É o retrato de um país que aprende a se contar de outra forma — não mais a partir de seus cartões-postais ou de suas polêmicas, mas a partir de seus bairros populares, de seus dilemas morais, de suas comunidades que inventam soluções onde o Estado está ausente.
O filme concorre também ao Prêmio Grande Otelo — principal reconhecimento do cinema brasileiro — em duas categorias: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem de Ficção. A cerimônia está prevista para o dia 4 de agosto no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Um filme sobre um traficante de Cuiabá. Uma atriz oscarizada que acredita nele o suficiente para colocar seu nome e seu prestígio por trás. Sessões previstas em Los Angeles. Uma candidatura ao Oscar. E por trás de tudo isso, a história real de vizinhos que abriram a carteira para evitar o pior. O Brasil sempre soube contar histórias que cruzam fronteiras. Com Cinco Tipos de Medo, ele acabou de provar que Hollywood começou a escutar de verdade.

